O que acontece se o poder político decide recusar seus deveres para com a religião e para com Deus?

O dado mais interessante dessa recusa é que o próprio poder se torna Deus; quando o poder político luta contra o Absoluto, transforma-se a si mesmo num absoluto. Quando a política lança Deus para fora da praça pública – seja na forma de violência do tipo jacobino ou da forma liberal e tolerante da democracia relativista –, termina por utilizar uma força de valor religioso, com pretensões a uma nova religião.

O secularismo contemporâneo é dogmático, violento, discriminatório e inquisitorial, como se possuísse uma força propriamente religiosa. É óbvio que não se trata de uma religião verdadeira, mas contém uma força religiosa, mesmo que do tipo anti-religioso.

Esse é um fato de notável importância. O poder político não consegue se colocar numa posição de neutralidade em relação ao poder espiritual e a Deus. Se não é com Deus, é contra Deus. Um mundo sem Deus não é um mundo neutro, mas um mundo sem Deus; enfim, um mundo contra Deus.

A laicidade política, entendida como a rejeição da religião e de Deus na esfera pública, é, portanto, impossível. Uma vez que Deus seja eliminado, o poder político preencherá esse espaço público com outros deuses, começando com a divinização de si mesmo.

Acaba sendo surpreendente, aos olhos de nossos contemporâneos, a conseqüência paralela disto: uma verdadeira laicidade política só pode ser alcançada se a política aceitar não apenas sua dependência (direta) da moralidade, mas também sua dependência (indireta) da religião.

https://www.vanthuanobservatory.org/ita/potere-politico-e-potere-spirituale-2/