Quem acompanha política internacional, certamente ser lembrará do polêmico Obamacare (apelido da Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente), um projeto de regulamentação do sistema de saúde norte-americano, proposto pelo presidente Barach Obama. A lei foi aprovada em 2010 e, entre outras coisas, obrigava empresas — leigas ou religiosas — a pagar, com direito a reembolso, cirurgias de esterilização e fornecer pílulas anticoncepcionais a suas funcionárias (inclusive a “pílula do dia seguinte”, comprovadamente abortiva), violando a liberdade de crença dos cidadãos.

Cristãos católicos e evangélicos chiaram, e o barulho do chiado alcançou a mídia. Entidades e organizações confessionais procuraram a justiça, praticando a “objeção de consciência” (direito do cidadão de não obedecer a leis que confrontem suas convicções religiosas), numa queda de braço que durou vários anos, até que finalmente Donald Trump, em 2017, isentou das obrigações previstas no Obamacare todos os que alegassem razões  morais e religiosas.

Mas voltemos à era Obama, presidente declaradamente favorável ao aborto, à eutanásia, ao casamento gay. O papa, à época, era Bento XVI, célebre entre outras coisas pela defesa da vida humana em todas as suas fases, da concepção à morte natural; do casamento como união permanente entre um homem e uma mulher; e do direito dos pais de decidir sobre a educação dos próprios filhos. Eram duas visões — a de Obama e a de Bento XVI — radicalmente conflitantes.

Num país com incontáveis denominações religiosas, a Igreja Católica americana é a maior de todas, com cerca de 20% da população (mais de 70 milhões de fiéis). Mesmo sabendo que nem todas as ovelhas desse rebanho acolhiam os ensinamentos morais da Igreja, o presidente Obama tinha pela frente um osso duro de roer, uma pedra que era preciso remover do caminho, com muitas e boas universidades, órgãos de imprensa, a maior rede católica de televisão do mundo (EWTN), bispos e padres ainda fiéis à doutrina.

 Hoje, sabemos que Obama não ficou de braços cruzados. Em outubro de 2016, o famoso site Wikileaks publicou milhares de e-mails recuperados da conta pessoal do estrategista político John Podesta, que foi Chefe de Gabinete da Casa Branca de Bill Clinton, conselheiro do presidente Obama e chefe de campanha da candidata presidencial do Partido Democrata Hillary Clinton.

Entre esses muitos e-mails, que comprometiam a então candidata Hillary Clinton e o Partido Democrata (que agiu pouco democraticamente na escolha do candidato oficial que concorreria com Trump), estavam os dois trocados, entre 10 e 11 de fevereiro de 2012, com Sandy Newman, presidente da organização esquerdista Voices for Progress e próximo de Obama.

A resistência católica ao Obamacare é o assunto principal desses e-mails, em que se fala da necessidade de iniciar-se uma Primavera Católica na Igreja. Fazia pouco mais de um ano (dezembro de 2010) que começara a Primavera Árabe, no Oriente Médio e norte da África, supostamente para a derrubada de ditadores impopulares (as armas dos rebeldes traziam a indisfarçável impressão digital da administração Obama).

O primeiro e-mail publicado pelo Wikileaks era o de John Podesta, do dia 10 de fevereiro de 2012, com a resposta de Sandy Newman já no dia seguinte. Os e-mails falavam da necessidade dessa Primavera Católica, expressão poética que significava, no fundo, mudanças radicais no catolicismo romano, através da criação de organizações de fachada (como a Catholics in Alliance for the Common Good e a Catholics United) que, aparentando institutos para divulgação da doutrina social da Igreja, eram só pontas-de-lança da promoção idéias revolucionárias (aceitação do aborto, eutanásia, direitos LGBT).

“Como a maioria dos movimentos de Primavera”, dizia Podesta, “acho que esse terá de começar de baixo para cima.” Ou seja: entre os leigos, os quais, devidamente “catequizados” pelo “catecismo” de Obama e da Nova Ordem Mundial, forçosamente provocariam o fim da “ditadura medieval” católica, obrigando padres, freiras e bispos a se curvarem diante do mundo.

Link para os e-mails: https://wikileaks.org/podesta-emails/emailid/6293