Padre e filósofo Cornelio Fabro com Papa João Paulo II

Qual mensagem de salvação pode anunciar ao mundo uma teologia que, sob o pretexto racionalista de desmitologização [dos Evangelhos], esvazia de sua realidade histórica os eventos da salvação, deixando na sombra — ou até os negando ou omitindo completamente — os mistérios e dogmas fundamentais do cristianismo, para se aplicar apenas às estruturas sócio-político-econômicas do homem, rejeitando o sagrado que há no mistério da queda e da redenção do homem?

Qual princípio de renovação pode haver numa teologia que, sem escrúpulos, seculariza a moral e, quase vergonhosa do ideal de pureza e pobreza cristã do Evangelho, irrompe numa existência marcada pelo prazer, pela recusa do sacrifício e para a escancarada celebração do sexo, logo alinhando-se à luta de classes, de braço dado com o marxismo, e, com a brutalidade da psicanálise mais radical, proclamar a inocência libertadora dos instintos?

 O que o mundo deve ou pode fazer com uma teologia sem pudor, que nos desarma diante do mal?

O que pode significar, para a sociedade consumista, mergulhada no tédio e na rebelião do ato gratuito, uma teologia dessa espécie, a qual, para salvar o mundo, se embriaga do veneno que intoxica o próprio mundo?

Não será esta uma teologia do desprezo de Deus, do homem e do mundo?

Uma teologia sem amor e sem pudor, que delira, como adverte São Vincente de Lerins, com a profanae vocum novitates [diante do palavreado ímpio do mundo]?

(Cornélio Fabro, L’avventura della teologia progressista. Milano, Rusconi Editore, 1974, “Introduzione”)