Fácil é, hoje que o Evangelho transformou e regenerou tudo, votar ao esquecimento todos os seus benefícios, e logra-los, entretanto, com soberba ingratidão. Fala-se com ostentação em fraternidade, igualdade e filantropia, e até em caridade; e facilmente se esquece, que é a Jesus Cristo e à sua Igreja, que se estão devendo estes sentimentos generosos e estas virtudes civilizadoras.

Não seremos certamente nós que iremos negar ao mundo romano a sua civilização material na alvorada do cristianismo. Reconhecemos mesmo que ela tinha chegado a um grau de esplendor, sob certos aspectos, extraordinário. E nem os nossos tempos modernos, não obstante, se podem facilmente comparar com os daquela época. Leia-se com efeito Os Césares pelo conde Franz de Champagny, para se ver, num como quadro deslumbrante, o grau de prosperidade exterior, a que Roma tinha chegado. Nem também negaremos a Roma pagã a situação privilegiada, que ela ocupa no mundo das letras. Quem de fato ousaria negar aos escritores do século de Augusto o mérito superior da forma? Têm o encanto do estilo, e a arte neles alcançou o seu auge.

 Força é, entretanto, reconhecer que sob esse exterior brilhante, sob essa forma encantadora, quase se não encontram senão uns fragmentos de verdade; algumas lições de bom senso prático, algumas ideias elevadas; mas não um corpo de doutrina, nem luz formando um foco. No que em particular diz respeito às verdades religiosas, as mais fundamentais e as mais necessárias à felicidade do homem neste e no outro mundo, que de dúvidas, de incoerências, de contradições, e de erros grosseiros!

 Não são, em verdade, esta grandeza material e esta superioridade intelectual as que geram a verdadeira civilização, nem jamais poderão tornar uma sociedade feliz. Não é em tais gozos que se encontra a felicidade dos indivíduos ou das nações; porque a felicidade do homem está na verdade e na virtude. Foi ele criado para conhecer, servir e amar a Deus neste mundo e a gozar eternamente no outro; a sua inteligência e o seu coração foram conformados para a Verdade e para o Bem, isto é, para o Infinito e para o Eterno. Por mais que ele procure desviar-se do seu fim, por mais que procure esquecê-lo ou ignorá-lo, nunca será menos verdade, ser este o seu fim e nunca deixará de ser verdadeiro o dito de Santo Agostinho: Fecisti nos ad te, Domine, et irrequietum est cor nostrum, donec requiescat in te. E a própria experiência nos mostra, por outra parte, como o nosso coração é de uma capacidade como que infinita, e os nossos desejos sem limites. O que valem todos os bens criados para lhe saciarem a sede de felicidade, que o atormenta? São-lhe todos eles como uma gotinha de água para o vasto mar.

 E, demais disto, mesmo quanto à prosperidade material, que triste era a realidade das coisas no mundo pagão! Quem não sabe que o número de favorecidos pela chamada fortuna era grandemente restrito? Cícero nos assegura que, na populosa Roma, havia apenas dois mil proprietários; e no tempo de Nero seis cavalheiros eram donos de metade da província romana da África, isto é, de uma superfície muito maior que a da Inglaterra. A grande massa popular vivia em muita miséria, e só conhecia as fortunas e os prazeres de seus senhores para os cobiçar. O pauperismo dominava o organismo social ao modo de uma chaga nojenta e profunda.

 Quanto aos costumes, não se lê sem horror e profunda tristeza, o que a história antiga nos conta acerca da degradação moral, a que descera o mundo pagão antes do advento do Cristianismo. Concedamos ter havido no mundo antigo boas falas, sentimentos generosos e ações humanitárias e caritativas; apesar de horrivelmente desfiguradas, nunca a imagem de Deus, no homem, se chegou a apagar por completo. O que, porém, se não pode negar é que a nota saliente ou o caráter dominante e universal na sociedade anterior a Cristo era uma crueldade por vezes feroz junta com uma espantosa imoralidade nas instituições e nos costumes. A realidade vai muito além do que a imaginação se pode representar, de modo que nem a corrupção dos tempos modernos se pode comparar com ela. Havia nos homens humanizados e nos povos mais policiados uma insensibilidade do coração, um menosprezo pela humanidade, uma aversão para com os pobres, um horror para com os infortunados e um gosto pelo sangue, pela carnificina e pelas infâmias de toda sorte, a tal ponto que hoje, no meio cristão em que vivemos, e já tão longe daqueles tempos, dificilmente podemos fazer ideia de tão vis e tão cruéis costumes. Toda a humanidade estava dominada por um orgulho sem limites, por um egoísmo desenfreado e por um sensualismo ferino, que sacrificava tudo, sem remorsos, aos seus desejos.

Vejamos como S. Paulo resume a história do mundo antigo. Falando aos romanos, cuja civilização dominava o mundo, e em si absorvera todas as energias e vícios dos povos subjugados, ousa ele dizer-lhes em rosto, sem receio que o contradigam: “Vós não tendes afeto nem fidelidade nem comiseração (sine affectione, absque foedere, sine misericórdia); cheios de toda a sorte de iniqüidades e maldades, malícias (iniquitate, malitia, nequitia, plenos invidia, homicidio, malignitate); odientos e odiosos (odibiles, odientes invicem).

 E ainda S. Paulo é de todos os escritores antigos o mais comedido. Platão, Aristóteles, Aristófanes, Plauto, Tito, Lívio, Tácito, Juvenal, Suetônio, Plutarco, Sêneca, todos, enfim, nos contam os horrores da sociedade pagã com uma sinceridade e franqueza no falar, que faz estremecer. E eram as nações mais civilizadas as que tinham estes costumes públicos e comumente recebidos. Os estranhos, os prisioneiros, os vencidos, os escravos, os enfermos, os endividados, os pobres, as crianças, os velhos, as mulheres, os operários, todos os fracos, os sofredores, os trabalhadores, a grande maioria, enfim, do gênero humano, era objeto de ódio, de zombaria e destruição. Os demais entregavam-se a toda sorte de vícios, que tinham as honras de divindades, com seus templos, altares e sacerdócio em todas as grandes cidades do mundo, de modo que a desmoralização era uma como obrigação social e a imoralidade tinha um culto público.

 Assim se encontrava o mundo antes de Jesus Cristo. E a este mundo sem amor, sem comiseração, sem entranhas de piedade e sem virtudes, imerso em todo o gênero de erros e torpezas, veio a suceder outro, este que nós conhecemos aureolado com as luzes da verdade, da pureza e da caridade. E donde lhe veio esta transformação magnífica e impossível de prever? O que se depara no ponto de contato entre os dois mundos, tão diferentes um do outro? Uma cruz, e nesta cruz o divino Fundador do Cristianismo, Jesus Cristo, que morre para redimir e regenerar o gênero humano decaído e aviltado. Que mais se pode exigir para se reconhecer a divindade de Jesus Cristo e da Igreja, obra sua?

(Pe. W. Devivier, SJ. Curso de apologética cristã. São Paulo, Melhoramentos, 1925, p. 505-8)