A afinidade profunda entre a Fé e a Poesia é que ambas restituem  ao homem a infância perdida. A poesia, pelo mistério da palavra. A  fé, pelo mistério do silêncio. A poesia, operando em nós o milagre da reversibilidade do tempo. A fé, levando-nos do tempo à eternidade.

A grande melancolia da vida é, precisamente, o imperativo da irreversibilidade. Fisicamente, não podemos evitar o envelhecimento, por mais que os químicos e os fisiologistas procurem iludir os homens com  a máscara, tantas vezes tétrica ou ridícula, de uma mocidade artificial –  que hoje procura até basear-se numa «ciência» nova : a «cosmética»… Essa falsa mocidade, de cabelos pintados ou rugas cirurgicamente suprimidas, é a única velhice realmente irreparável. Só há um meio natural de nos preservar da ação do tempo: a poesia. A poesia, com ou sem versos. A poesia que preserva em nós as fontes naturais da alegria. A poesia que nos arranca à solidão. A poesia que nos restitui a inocência infantil. A poesia que nos faz percorrer o tempo em sentido contrário, do delta às cachoeiras, e nos pode levar sempre às fontes inesgotáveis do desejo e da ilusão. A poesia que nos ensina o mistério das coisas. A poesia que faz os animais falarem. A poesia que não conhece distâncias nem idades. A poesia que nos faz sempre brincar com as coisas graves e tomar a sério as coisas fúteis, como o faríamos em criança. Pois a essência da poesia, no sentido mais amplo do termo, é nos colocar sempre, como as crianças se colocam, no centro do universo, no mais fundo arcano daquela «máquina do mundo», de que falou o poeta, sem querer penetrá-la e, no entanto, de dentro dela. Pois o poeta, queira ou não queira, o autêntico poeta, nos fala de dentro da máquina do mundo e nos mostra como, afinal, ela é simples. Somos nós que, com o tempo, a complicamos. Para a criança, tudo é simples, justamente porque tudo é mistério e o milagre é tão natural como a queda das folhas ou o curso das cascatas. A poesia é o único antídoto natural contra o envelhecimento, mesmo quando aparentemente, nos envelhece antes do tempo. Pois são as almas infantis, com vocação poética, que mais cedo sentem a tremenda solidão das almas, a irremediável torre do silêncio e incompreensão recíproca, em que os homens vivem inexoravelmente murados, «emparedados», como dizia Cruz e Sousa, por mais que se esforcem  por sair do seu trágico isolamento.

Contra essa solidão que resiste, por vezes, à própria poesia, só há uma libertação: a Fé. Se a poesia nos restitui a infância, que é tantas vezes uma tragédia inconfessada — pois a solidão começa em nós apenas raia a consciência do nosso eu e só as almas vazias ignoram esse drama da incompreensão da nossa infância pelos adultos; se a poesia vence o tempo e o percorre no sentido das origens terrenas,— é a Fé, e só ela, que consegue abolir o tempo ou antes transcendê-lo, pois só a morte abole o tempo, para nos levar então à única verdadeira e total Infância, a da Eternidade. A eternidade não começa depois do tempo, isto é, depois da morte. Começa quando vemos a luz do dia. É ao nascermos que tempo e eternidade, simultaneamente, tomam  conta do nosso desamparo. Mas o homem é uma máquina frágil e tão lenta, que só muitos anos mais tarde, só na consciência do sofrimento (e também da alegria, sua companheira, discreta ou exuberante) é que os seus olhos do espírito se abrem aos dois acompanhantes que o seguirão a vida  inteira. Por vezes, só tomamos conhecimento de um dêles, frequentemente ao tempo sem a eternidade. Por vezes, muito mais raramente, nas almas naturalmente místicas, da eternidade sem o tempo. Para todos, porém, que querem viver a vida, sob todas as suas facetas, as duas vertentes não se dissociam. E essa visão global da vida é que a Fé cristã nos restitui, se a perdemos, e nos guarda, se tivermos a sorte de poder preservá-la, em nós, sem interrupção.

Os dois momentos culminantes do ano cristão, do ano intensamente vivido pelo homem — o Natal e a  Páscoa —  nos apresentam as duas faces da nossa vida total, cada qual em um sentido. O Natal é a descida da Eternidade ao tempo, como a Páscoa é a subida do tempo à Eternidade. E por isso mesmo é que Nata l e Páscoa são os dois polos do mundo cristão, do nosso mundo restituído à sua substância mais pura, pela infância espiritual que só a Poesia e a Fé nos permitem recompor.

O Natal é a descida de Deus à terra, da eternidade ao tempo, do invisível ao visível. É’ o mistério da Encarnação. É o tremendo paradoxo da Verdade que assume a face do erro, da Pureza que se apresenta na terra com as vestes do pecado. Pois Deus é a Verdade e a Pureza e o homem é o Erro e o Pecado. Mas justamente o que faz a essência do mistério cristão, o que faz com que ele permita ao homem vencer a sua solidão, a sua angústia, o seu desespero ou, pior ainda, a sua indiferença e o seu orgulho de ser ele mesmo um deus, o único deus da maquina do mundo, — é que a Fé nos mostra, no homem Jesus, o Messias prometido aos séculos, o Salvador único, o próprio Filho de Deus que veio colocar-se ao alcance de nossas mãos para viver conosco, sofrer conosco, alegrar-se conosco, morrer conosco e, afinal, ressuscitar conosco e conosco viver a superação final do tempo pela Eternidade. E só assim deixa o homem de ser apenas Erro e Pecado, para se tornar o irmão, em carne e osso, da própria Verdade e da própria Pureza do Cristo Nosso Senhor.

A ausência da Fé nos deixa apenas no plano natural. E a Poesia quando muito nos leva, de novo, às fontes humanas do desejo. A presença da Fé não suprime a Poesia, alia-se a ela. Confunde-se com ela. E depois de nos levar à infância, aos oito anos do poeta, com a camisa aberta ao peito, entre as borboletas azuis, nos leva ainda além. Leva-nos aos campos e às borboletas, que a Poesia por vezes não consegue descobrir. Pois a Fé é a poesia da própria poesia. É a essência; a própria essência poética. É a chave que nos leva do domínio da magia e do encantamento de Ariel, ao domínio em que volta a verdade depois da fantasia, em que a realidade é mais real do que a revelada, apenas, pelos nossos sentidos. A Fé nos leva mais longe do que a Poesia. Esta nos leva aos campos da ilusão das coisas naturais. Aquela nos leva aos horizontes do Enfim, da Realidade última, pelas mãos do silêncio, plenitude da palavra.

E o Natal, festa anual da vinda de Deus ao mundo, festa Simbólica e mais do que isso, real, do nascimento do único Esperado, festa da infância restituída ao homem envelhecido e desapontado pela vida, festa da inocência restaurada, da vitória sobre o pecado e o sofrimento —  o Natal é a grande preparação para a Páscoa, é a grande anunciação de que a vida vale a pena de ser vivida. Mas só o vale, para nós, quando sabemos preservar em nós as fontes do desejo pela poesia, sim (mas indo além, indo à fonte das fontes, onde o Desejo se torna Visão, onde todas as confusões e os mistérios do mundo se tornam translúcidos). E tudo isso, aqui na terra. Tudo isso, antes da morte. Tudo isso em plena vigência da lei do sofrimento e da solidão.

Cada um de nós carrega consigo o seu Natal. Cada um de nós o aniquila ou o recompõe, conforme sabe ou não utilizar a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Quando deixamos apagar-se em nós a compreensão profunda do Natal; quando deixa-nos que ele venha a nós, cada ano, como uma festa meramente mundana, pretexto para «reveillons» ou presentes arruinadores ou, quando muito, para uma vaga nostalgia de paraísos perdidos — o que já  é uma vitória contra o terríve esquecimento; quando não sabemos ouvir a voz que, cada ano, na noite santa, nos segreda as palavras de esperança e de perdão, – então, sim, é que deixamos secar em nós as fontes do desejo.

Mas quando sabemos abrir os alçapões do nosso mundo fechado, para que os morcegos vôem e cedam o lugar ao humor das asas angélicas, –  então é que nem tudo está perdido. Então é que o homem feito não deixou morrer de todo, em si, o espírito da infância, o menino que dorme.

E nao é uma só vez por ano, que devemos viver o Natal. É a cada dia. É cada manhã do ano todo. A missa quotidiana outra coisa não é senão o renascimento solar da morte e da ressurreição do Cristo, isto é, da Alegria do Mundo, como diz Bach. E o Natal é a grande preparação quotidiana para a Morte e a Ressurreição. A alegria cristã é inseparável da morte e da ressurreição. Nisto é que se separa, radicalmente, da alegria pagã. O paganismo é, sem dúvida, uma preparação para o cristianismo. Mas o neo-paganismo é uma corrupção do cristianismo. O paganismo se preparou para receber a Alegria do Mundo, agitando infantilmente os seus maracás e os seus tacapes, nas selvas primitivas, ou levantando estátuas ao deus desconhecido, na Ágora ou em Atenas. Mas o neo-paganismo — invadido pela ferrugem ou intoxicado pelo álcool dos sentidos, delirante de arrogância ou sorridente de displicência — esse é realmente o único irremediável envelhecimento, a única verdadeira negação da vida. O mundanismo anti-cristão, o agnosticismo indiferente  ou o ateismo militante, esses realmente rejeitam  o Natal, corrompem o Natal, matam o espírito de infância no  coração dos homens. E enchem o mundo moderno com os acordes lânguidos dos seus “réveillons”, ou com as apóstrofes implacáveis da religião como ópio dos povos. E com isso fecham aos homens de hoje as portas douradas da infância, corrompendo a Poesia e desterrando a Fé.

Por isso mesmo, é preciso defender no mundo de hoje o sentido profundo do Natal, renovação da Infância do homem e do Mundo.

Hermann Melville, o mais poderoso gênio dos EUA, escreveu um dia como síntese genial do desespero: «Sadness is universal and eternal» (A tristeza é universal e eterna).

Contra essa apóstrofe do grande poeta em prosa, o maior talvez dos norte-americanos, que vislumbrou sem dúvida o segredo da verdade, quando disse que o Cristo era «o melhor dos homens» e como tal — era «The Man of Sorrows», o homem dos sofrimentos — contra essa apóstrofe noturna podemos erguer o canto solar do maior dos poetas da música: o  «Cristo, Alegria dos Homens»!

Quando, em Belém, no mais humilde dos berços, nasce o filho  de Maria, é a alegria, não é o sofrimento, que nasce para os homens. Mas Ele não veio abolir o sofrimento. Como escreveu outro grande poeta, o maior dos nossos dias, Claudel: «Ele veio sofrer conosco». A alegria verdadeira não é a negação do sofrimento. É a explicação do sofrimento. Nem a morte suprime o  sofrimento. Só o Cristo o faz. E se o faz é porque veio sofrer conosco, é porque nos veio indicar o caminho da verdadeira alegria, que não é a escravidão aos falsos prazeres dos sentidos, mas o segredo da grande paz de espirito, aquela que nos dá a compreensão do sentido da dor.

Não é a Dor que é eterna e universal. É a alegria que é universal e eterna. A alegria pela infância restituída aos homens pela Poesia e pela Fé. A alegria pela vitória sobre a dor. A alegria pela simplicidade, pela naturalidade, pela humildade. A alegria, pela compreensão do Natal, do Natal de 25 de dezembro como do Nata de cada dia, pois as fontes do eterno desejo estão prontas, cada dia, a desalterar a nossa sede insaciável do infinito, se soubermos ver, no Filho  de Maria, a Suprema Alegria do Mundo.

(Diário de Notícias, 25 de dezembro de 1954)