AS HERESIAS DE SEMPRE. Um estudo interessante — que não sei se já foi feito — seria verificar em que medida se complementavam e auxiliavam dois fronts inimigos da Igreja, situados em seu próprio interior: o primeiro, composto por agentes infiltrados na hierarquia católica, provenientes sobretudo do comunismo; o segundo, por teólogos atuando na contramão das balizas conceituais permitidas pelo dogma.

Esse último inimigo — gente de dentro visando alterar a doutrina — sempre existiu na Igreja, denunciado desde o início já nas cartas do Novo Testamento. São os “falsos doutores” da 2ª carta de São Pedro, os “homens que semeiam a discórdia” da carta de São Judas, as “desarmonias na assembléia” da 1ª Carta aos coríntios de São Paulo, o qual até via com bons olhos as divisões, para que se destacassem os que realmente fossem ortodoxos.

Esse tipo de joio sempre existiu no trigal católico. Basta pensar, entre outras, nas heresias dos primeiros séculos (gnosticismo, milenarismo, montanismo, marcionismo, arianismo, pelagianismo, donatismo, nestorianismo), o movimento cátaro-albigense dos séculos XII e XIII, a filosofia nominalista à época da Escolástica, as várias rupturas protestantes do Renascimento, o jansenismo, o modernismo de fins do século XIX, a “teologia da libertação”.

Tratava-se de um inimigo à vista e, por mais danos que pudesse causar, como no caso do luteranismo, conheciam-se as idéias do opositor e suas táticas. Apesar de tudo, era uma praga que ainda se podia localizar e combater.

INFILTRAÇÃO COMUNISTA NA IGREJA CATÓLICA. Bem diferente foi a infiltração comunista na Igreja Católica, em meados do século XX. Tal infiltração já é fato conhecido, revelado por ex-comunistas ocidentais que se converteram ao cristianismo ou simplesmente rompiam com o Partido Comunista, aos quais se somaram desertores que ocupavam postos proeminentes em órgãos da administração soviética, um pouco antes da Perestróica.

Segundo eles, a União Soviética já vinha adotando desde a década de 1930 uma política mundial para introduzir agentes vermelhos na hierarquia católica. O catolicismo — declaradamente anticomunista — era tido por Moscou como o grande inimigo a abater, com seus tentáculos reacionários espalhados por boa parte do mundo. Como tornar vitoriosa a luta de classes, enquanto houvesse um padre falando mal do comunismo na mais insignificante das paróquias?

Duas estratégias foram utilizadas contra a Igreja: introduzir nos seminários católicos membros da juventude comunista, cuidadosamente selecionados pelo Partido Comunista, para atuarem de maneira específica; ou, simplesmente, jovens de natureza rebelde, não obrigatoriamente filiados ao Partido, mas que, uma vez ordenados sacerdotes, dificilmente se conformariam com as normas morais da Igreja e sua doutrina. Não interessava aos comunistas destruir a instituição católica, mas unicamente remodelá-la, tornando-a de tal modo desfigurada e aderida ao mundo, que o ser ou o não-ser católico fossem, afinal, a mesma coisa.

Não é difícil imaginar os efeitos desastrosos que aqueles jovens infiltrados nos anos 30 teriam provocado no catolicismo, depois de ordenados. O que pregavam em suas homilias paroquianas? O que ensinavam nos seminários e universidades católicas, quando se transformavam em professores e teólogos? Como conduziam suas dioceses, quando eram nomeados bispos? Qual foi o grau de corrupção que, efetivamente, provocaram nas instituições católicas?

Em boa parte, a resposta estará na situação deplorável em que se encontra a Igreja atualmente, mais voltada para a integração das pessoas no mundo que para a salvação eterna das almas.