Já no V século São Vicente de Lerins, em seu Commonitorium, procurara mostrar que a fé cristã, ao desenvolver-se, amplia-se sem todavia transmudar-se. Porém, as indicações sumárias que nos legou, antes agitavam questões que as resolviam. Os grandes escolásticos, propondo embora certos princípios de solução, não trataram o problema com a merecida amplitude, de sorte que a questão, suscitada em 434, aguardou 14 séculos — até 1845 — para ser examinada a fundo: o Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, do cardeal Newman, foi a genial continuação do Commonitorium. A teoria de Newman representa contribuição de importância capital, não só para a apologética como ainda e sobretudo para a teologia. Introduziu, com efeito, neste ramo de saber, uma realidade fecundíssima: o tempo.

Newman transferiu arrojadamente para o campo histórico o problema apologético da Igreja. Em vez de argumentar, a perder fôlego, sobre textos da Bíblia — a letra mata — vamos interrogar a história, grande mestra da verdade. Por não ser duma essência abstrata, subsistindo no mundo de Platão, mas uma religião concreta, vivida por milhões de homens, o cristianismo estará fatalmente submetido à historicidade. Acompanhemos-lhe pois a existência desde os primeiros albores, atentemos no seu crescer e colhamos as lições que nos inculca esse espetáculo.

Ora, pondera Newman, se existe verdade incontestável, é que o cristianismo, tal qual no-lo apresenta a história durante 16 séculos, nunca foi protestante. Com ironia mordaz aponta Newman que, se quisermos afirmar a existência do protestantismo antes de Lutero, deveremos admitir que misterioso e devastador dilúvio varreu-o da face da terra de maneira tão radical que nem mesmo deixou cadáveres a testemunhar-lhe a fugaz realidade. Tome o protestante qualquer de suas doutrinas prediletas — sua noção de fé, de culto espiritual, a negação da eficácia dos sacramentos ou da Igreja visível — e debalde há de procurá-las no cristianismo primitivo tal qual a história no-lo mostra.

Essas doutrinas são meras deduções da Escritura, feitas com 16 séculos de atraso. Se há coisa certa, historicamente falando, é que o cristianismo antigo não se pautava pela Bíblia interpretada ao sabor de cada um, mas pela tradição oral: a pregação dos Apóstolos e a dos Bispos sucessores dos Apóstolos. Essa pregação revestia um caráter de testemunho objetivo — como demonstra sobejamente o livro dos Atos — no qual não era permitido introduzir modificação alguma. Os Apóstolos eram testemunhas do próprio Cristo, os primeiros Bispos eram testemunhas dos Apóstolos e, por eles, de Cristo. Assim, por exemplo, no século II, Santo Irineu, Bispo de Lião, afirmava que a doutrina por ele ensinada fora recebida de seu mestre São Policarpo, Bispo de Esmirna, o qual por sua vez a recebera diretamente de São João Evangelista, o qual a recebera imediatamente do mesmo Cristo. Uma cadeia de testemunhas que não admitiam interpretações privadas — logo subjectivas e divergentes —, mas ensinavam autoritativamente c exigiam absoluta submissão a esse ensinamento.

Quando S. Paulo, por exemplo, “percorreu a Síria e Cilícia, confirmando as igrejas e ordenando-lhes que guardassem os preceitos dos Apóstolos e dos presbíteros” (Atos dos Apost., c. 15, v. 41), está claro que tolheu aos fiéis todo e qualquer livre exame. Em face do cristianismo histórico, o protestantismo ortodoxo vê-se acuado a sustentar este paradoxo: Cristo fundou uma religião para em seguida fazê-la desaparecer sem deixar vestígios e esperar 16 séculos — qual bela adormecida no bosque — a vinda do príncipe encantado, Lutero.

“Eles estão sempre em busca duma fabulosa simplicidade primitiva, nós nos assentamos sobre a plenitude católica. Eles procuram o que nunca foi encontrado, nós aceitamos e praticamos o que mesmo eles reconhecem ser algo essencial. Eles são constrangidos a manter que a doutrina da Igreja nunca foi pura, nós dizemos que nunca se pode deturpar. Nós acreditamos que uma promessa divina preserva a Igreja da corrupção doutrinal; eles, ninguém sabe que promessa os anima a demandarem aquela pureza imaginária.” (Cardeal Newman, Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã)

(Padre M. Teixeira-Leite Penido, O cardeal Newman. Rio, Vozes, 1946, p. 81-83)