Euler Belém: A Globo tem uma imagem de emissora católica. Mas é uma das que mais apresentam padres em situações difíceis em suas novelas. Como o senhor analisa isso?

Dom Manuel: Não vejo nada de católico na Globo. Pelo contrário, devemos a ela grande parte da demolição dos valores cristãos no Brasil. Hoje, não só jovens, mas até pessoas adultas acham que devem imitar o comportamento e as expressões que são veiculadas nas telenovelas. E não é só a Globo, é a Bandeirantes, o SBT… Esses diretores não sabem o mal que estão fazendo. Na Itália, em 94, a Rai, a televisão italiana, passou o ano inteiro trabalhando sobre a Divina Comédia, de Dante (Dante Alighieri, 1265-1325, poeta italiano). E o grande sucesso que a Divina Comédia fez junto ao público foi exatamente devido às condenações que Dante reserva aos corruptos no inferno. Os jovens se entusiasmaram com a descrição tão perfeita da corrupção. Quer dizer, lá a televisão fez um trabalho educativo, de recuperação da popularidade de um grande poeta.

Euler Belém: Os produtores de TV no Brasil alegam que a oferta de sexo é sinônimo de liberdade, de país desenvolvido. Mas, nos países desenvolvidos, não se vê nada disso.

Dom Manuel: A televisão brasileira é a mais corruptora do mundo. Dom Lucas Moreira Alves viajou pelo mundo todo, conhece a televisão de 60 países, e garante que nunca viu televisão mais podre do que a nossa. É uma verdadeira escola de prostituição. Às sete, oito da noite, quando as crianças ainda estão na sala, liga-se a televisão e a sala de visitas se transforma num prostíbulo. A televisão brasileira é um curso acelerado de prostituição. Duvido que um pai de família tenha coragem de folhear uma revista pornográfica junto com suas filha de sete, oito anos. No entanto, esse mesmo pai de família assiste telenovelas que mostram essa mesma pornografia, só que não apenas graficamente, mas ao vivo, o que é muito pior.

Euler Belém: O que o senhor assiste na televisão?

Dom Manuel: O que ainda assisto, mesmo assim com um espírito crítico muito atento, são os telejornais. Programas, só de debate ou algum filme. Nos Estados Unidos já existe uma preocupação no sentido de que a televisão deixe de ser um vício para ser um lazer. Há um grupo alemão que acha que a criança não deveria assistir televisão até os 11 anos de idade. Eles entendem que o tóxico mais terrível da sociedade moderna é exatamente a televisão. A pessoa cria uma dependência absoluta da televisão. E sofre uma transformação psíquica, como ocorre com os usuários de cocaína, heroína. Quando cheguei à Diocese de Anápolis, em 89, ainda havia algumas cidadezinhas do interior que não tinham televisão. Dois anos depois de implantada a televisão, a situação era completamente diferente. As pessoas não eram as mesmas.

José Maria e Silva: Então, o que fazer? Censurar a TV?

Dom Manuel: Falar em censura deixa todo mundo ouriçado. Mas todos nós vivemos sob censura. Os tóxicos, por exemplo, são censurados. Eles representam um grande risco. Hoje, até o teatro, sob o pretexto de que arte é liberdade, virou bandalheira. É o sexo aberto.

José Maria e Silva: Além da violência e do sexo, o riso exacerbado, o escracho, também não são um corrosivo contra os valores morais? A Globo, por exemplo, já fez novela das sete em que Dercy Gonçalves fazia chacota de Deus.

Dom Manuel: O homem que não é alegre ou está doente ou é mau. A alegria é a cor de saúde da alma. Mas uma coisa é alegria, outra coisa é o deboche, o escárnio. Esse tipo de riso é um dissolvente terrível de qualquer valor. E é ele que impera, hoje, na televisão. O escárnio, o deboche, é um fenômeno das decadências. O homem chega a um ponto em que não encontra saída e resolve rir da própria desgraça. É o contrário do riso de um Machado de Assis, de um Suetônio, por exemplo, brilhantemente analisado por Viana Moog.

In: http://porquenaodizem.blogspot.com/2008/12/entrevista-com-dom-manuel-pestana-filho.html