Rio, 15 de setembro, 1928.

Jackson, estava em meio de seu artigo quando recebi a carta.  E estava lendo nas entrelinhas como a poesia começa realmente a representar alguma coisa, quando a gente passa pelo tormento das opções.  Quando, há dias, escrevi o artiguete que vai sair amanhã, eu estava num desses momentos de horror pelo contato com a vida.  De modo que sentia mesmo, até a medula, como a poesia é realmente um imenso refúgio.  E lendo hoje seu artigo compreendi que em você a coisa deve ser ainda mais intensa, já que em você todas as coisas repercutem de um modo formidável.

Estava positivamente com falta de suas cartas.  E passou-me pela cabeça um pensamento mal: “O Jackson, agora que me vê na Igreja, abandona-me a mim mesmo, pois julga terminada sua missão junto à minha alma”.  E, no entanto, eu sinto cada vez mais que “a Graça não altera a natureza” e que o medíocre X. teve uma frase de muito espírito quando me dizia uma vez: “Dizem que o casamento é um fim.  Eu acho que é um começo”.

Assim é com as conversões.  É o começo de um caminho, não o resultado, o fim de outro.  Ou antes, é uma coisa e outra.  Mas a alma trabalha cada vez mais e haveria muito mais coisas a dissecar nela do que antes.  E acho bom que não nos silenciemos um defronte do outro, agora que temos a mesma razão de morrer, a mesma causa de viver.

Tenho estado com o Franca e ele me tem valido em momentos de aniquilamento terrível.  Tenho comungado todos os domingos.  Isso produz uma verdadeira revolução no espírito.  Horas de paz verdadeira, como esta em que estou escrevendo, e que traz sempre a confissão e a Eucaristia – e horas de verdadeiro terror de mim mesmo, de dúvida mais negra do que quando não tinha a fé.  Neste momento estou sereno.  Esperando receber amanhã o Corpo de Cristo com o coração pacificado por algumas horas.  Mas logo depois, que revolta de tudo, que corcovas desta natureza infeliz, que desprezo formidável de mim mesmo.

Até hoje eu me sentia nada, mas não tinha o dever de ser alguma coisa.  Hoje, quando o sentimento do meu nada desce sobre mim, e eu vejo o contraste do que deveria ser, que humilhação tremenda!  Que sentimento de inação, de inutilidade, de imprestabilidade, e de medo.  Medo diante dos ataques, das objeções, das injúrias que os meus inimigos vão poder dizer, com justiça, deste industrial católico – sempre a mesma imbecilidade, bem o sei, mas não consigo chegar à sua serenidade quanto à questão social.  É ela sempre o meu pavoroso remorso.  Há dias, lendo a narrativa admirável da obra que o jesuíta Pierre Claude e seus colaboradores estão fazendo para evangelizar os subúrbios de Paris (Le Christ dans la banlieu), havia a nota sobre o Abbé Ghicka.

Esse Abbé Ghicka é nem mais nem menos do que o príncipe Ghicka, sujeito riquíssimo, poderosíssimo, elegantíssimo, que se casou em tempo (creio que foi ele mesmo) com a Jeaanne Keading, que foi a mulher mais elegante de França, e que se fez padre e hoje vive numa barraca de latas vekhas, em Bicêtre, o subúrbio dos apaches, fazendo apostolado e vindo a Paris, uma vez por semana, para confessar pessoas de nacionalidades estranhas, como tchecos etc., línguas que ele fala corretamente!

Isso sim, é que é ser católico.  Agora, converter-se e continuar diretor de fábrica de tecidos, e crítico literários nas horas vagas, que imensa humilhação diante de Deus.  se não fosse o perdão que uma vez por semana recebo do meu confessor, e a esperança de que a Eucaristia me dê forças para trabalhar lentamente, em silêncio, com o tempo, pela minha elevação moral e pela causa de Deus, eu desesperaria.  Pois quando olho a miséria me sinto mais miserável que todos os pobres.  Anteontem fui ao Cemitério do Caju.  E eu, morador em bairro rico, passando por aquelas casinhas miseráveis, de crianças esquálidas, de homens sem dentes, de mãos estragadas pelo trabalho, de mulheres deformadas por maternidades sucessivas, de famílias inteiras roídas sífilis, de vermes, de vícios, e sobretudo a fisionomia velha das crianças, que horror!!! – vendo tudo isso senti-me – por que não dizer? – fariseu.  Sim, a palavra é horrível mas o sentimento foi esse e não outro.  Eu ainda não consegui passar ao sangue, ao subconsciente, à convicção em que estou de que há uma nobreza profunda em obedecer, em fazer parte de um todo imenso, em trabalhar no seu canto, sem o orgulho da santidade.  A minha inteligência me diz: “Faz o que está em tuas forças fazer, mediocremente,não importa, arrastando os epítetos de fariseu, de hipócrita, de capitalista, de interesseiro, com que os teus adversários te cubram; se a Igreja tem o Espírito de Nosso Senhor com ela, não deves senão fazer o que ela te ordenar.  E se ela se contenta com o que dás hoje a ela, o juízo do sacerdote que dirige tua alma, fica sereno e faz o teu dever na sombra.”

Isto me diz a minha lucidez consciente.  E eu vejo que ela tem razão.  Da mesma forma que já por vezes mais patriotismo num espião que se desonra pela pátria do que um soldado que morre por ela.

Eis em que ponto está a minha paz de espírito…

Tenho, entretanto, momentos de grande paz.  E neste instante estou realmente com um senso imenso de equilíbrio na Verdade e de repouso em Deus, que não conhecia antes.  O meu eu, o meu demônio da guarda (é uma ideia que sempre atormenta: não teremos nós, junto ao anjo de nossa guarda, um demônio também sempre presente?  Até que ponto serão reais os anjos e os demônios, substancialmente em torno de nós?  Até que ponto o anjo é um ponto de fé dogmática?) – me segreda que isso é egoísmo.  Mas não é.  É a paz de quem recebeu o perdão de Deus e amanhã receberá o seu Corpo.

Fosse eu digno de tudo isso!!!

Seu artigo é uma página, portanto, de refúgio na beleza, na poesia.  Que alma viva você tem!  Como você deve sofrer da solidão em que vivemos.  Digo vivemos, pois sinto cada vez mais tremenda essa solidão.  Sinto-me só de uma maneira alucinante.  Com Deus, sim.  E isso é o único consolo.  Mas como viver só?

O cartão do Afrânio não é uma queixa.  É uma homenagem imensa a você, ao único homem que até hoje tem dito as verdades a ele.  Ele é de um orgulho terrível e tem brigado com todos os que ousam contrariá-lo.  Você é a única exceção.  Esse cartão é uma prova, das mais formidáveis, que você terá recebido do poder de impressão que você produzia sobre os homens de seu tempo!  Guarde-o com orgulho.

Ainda não marquei a minha ida a Dom Leme.  Tenho medo das obrigações de me meter no meio católico, tenho temor desse meio, desse espírito, do que ele tem de análogo, de semelhante à minha mediocridade!  Mas será uma noite dessas e prevenirei a você.

Não recebi o tal Sens de la Métaphysique.

Quanto ao meu artigo sobre o Macunaíma, acho bom você ler.   Não pelo artigo.  Mas porque eu transcrevo muita coisa de dois prefácios inéditos que o Mário de Andrade ia publicar com o livro e acabou não publicando.  E depois, Macunaíma, como eu digo lá, me deu uma bruta impressão do que é a realidade dissolvida, relaxada, anárquica, do nosso povo e da nossa alma nacional.  Seu defeito (aliás, o Mário nega que ele seja símbolo nacional) é que não distingue o que há, ao contrário de rijo, de sólido, de puro, no caráter das populações mais puras do sertão, e o que há então de relaxado e dissoluto nas populações mestiças e litorâneas.  O que você apontou falando da Bagaceira.

E é o que há por hoje.

Um abraço do Alceu