Muitos ainda terão gravadas, nos olhos, as imagens daquele 28 de fevereiro, há seis anos atrás, quando Papa Bento XVI finalmente deixou de helicóptero o Palácio apostólico, no Vaticano, para ocupar temporariamente a residência de Castelgandolfo, para começar “como peregrino a última etapa de sua vida.” No dia 11 de fevereiro, festa de Nossa Senhora de Lourdes, ele anunciava sua renúncia ao papado.

Durante muito tempo discutiu-se, e ainda se discute, as razões reais dessa renúncia, muitas vezes com muita fantasia, embora Bento XVI sempre tenha dito que foi uma decisão tomada “em completa liberdade”. Muito menos se refletiu no “após renúncia”, que na verdade é fato ainda mais cheio de conseqüências para a Igreja. Porque se a renúncia ao Papado já ocorreu no passado e está prevista pelo Código de Direito Canônico, nunca se pensou antes, e muito menos teorizou-se, a respeito do papado “Emérito”.

Para entender como a coisa tem surpreendido, é suficiente citar o artigo da revista Civilização Católica (que sairia depois do visto da Secretaria de Estado), publicado imediatamente após o 11 de fevereiro com a assinatura do canonista padre Gianfranco Garland: “É claro que o Papa que renunciou não é mais Papa, portanto não tem mais nenhum poder na Igreja e não pode interferir em qualquer assunto de governo. Poder-se-ia perguntar qual título Bento XVI conservaria. Pensamos que ele devesse receber o título de bispo emérito de Roma, como qualquer outro bispo diocesano ao deixar o cargo».

Em vez disso, Bento XVI tinha em mente outra coisa: queria ser “Papa Emérito”, mantendo o título de “Sua Santidade” e vestindo a batina branca talar. Algo inédito, cujo significado e consequências para a Igreja ainda estão por ser explorados. Seguramente, houve mudança na concepção do papado. Embora seja impróprio falar de “dois papas”, certamente Bento XVI não pretendeu renunciar totalmente ao seu ministério. Ele o disse claramente na última audiência, em 27 de fevereiro: “O ‘sempre’ também é “para sempre” — não havia mais como retornar à vida privada. Minha decisão de renunciar ao exercício ativo do ministério não revoga isso. Não volto à vida privada, uma vida de viagens, reuniões, recepções, conferências etc. Não abandono a cruz, mas permaneço junto ao Crucificado de uma outra maneira. Já não tenho o poder de governar a Igreja, mas no serviço da oração permaneço, por assim dizer, no recinto de São Pedro”.

Como explicaria monsenhor Georg Gänswein, secretário pessoal de Bento XVI e Prefeito da Casa Pontifícia, em um discurso histórico de 21 de maio de 2016, embora não haja “dois papas”, no entanto se podia falar sobre “o fato de um ministério alargado, com um membro ativo e outro contemplativo”. Um pouco antes, ele havia dito que “a partir de 11 de fevereiro de 2013, o ministério papal não é mais o mesmo de antes. É e continua a ser a base da Igreja Católica; e, no entanto, é um fundamento que Bento XVI transformou profunda e duradouramente em seu pontificado de exceção”.

Estas são declarações de enorme significado, mas caíram no esquecimento. Papa Francisco nunca compartilhou dessa visão, tentando relegar Bento XVI ao simples papel de “um avô sábio dentro de casa”, só valorizando a instituição da renúncia do Papa. Mesmo assim, diante de duas maneiras tão diferentes de entender aquele momento histórico, seria de esperar-se um debate à altura da novidade ocorrida. Em vez disso, nada aconteceu.

Podemos continuar a fingir que nada ocorreu, mas o fato histórico, a “reforma do papado”, permanece e ainda produzirá conseqüências. Louvavelmente, em seu último livro (O segredo de Bento XVI, Rizzoli) Antonio Socci traça todos os momentos básicos dessa história, examinando as intervenções de Bento XVI e do Mons. Gänswein, que acrescentariam pouco a pouco detalhes e critérios para compreender, pelo menos em parte, o sentido da decisão do papa emérito. A parte central do livro, com comentários de vários canonistas, torna-se assim uma síntese imperdível para entender as questões em jogo.

Pode-se concordar ou não com as premissas alegadas para a renúncia de Bento XVI e as conclusões a que Socci chega, mas resta o fato que hoje, depois de seis anos, não é menos importante do que então tentar entender como o papado foi modificado. De fato, em vista dos recentes desdobramentos, parece que é ainda mais urgente fazê-lo.

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