Alguns meses atrás, durante o bate-papo social que se voltou, com previsível preocupação, para a moderna praga da apostasia clerical, um venerável membro da Companhia de Jesus contou várias histórias sobre a infiltração comunista entre os jesuítas. Uma delas era a de dois homens enviados para se juntar à Companhia na Itália e na Espanha por seus respectivos partidos comunistas nacionais: o primeiro retornou ao Partido no início dos anos 50, depois de mais de uma dúzia de anos de estudo e ordenação sacerdotal; o último deixou a Companhia antes da ordenação, há uma década.

Ainda mais perturbador foi o caso de um proeminente reitor do seminário jesuíta em Roma, sobre o qual, após ser atropelado e morto, descobriu-se ser membro da KGB.

Ponderemos, um pouco, sobre todos os imponderáveis de tal infiltração, o efeito dominó que poderia ter provocado, tais como os muitos alunos que foram deformados pelos professores, no seminário, ao longo dos anos; os clérigos e leigos que eles, por sua vez, como sacerdotes, teriam corrompido; os seminários e Ordens religiosas que foram igualmente infiltrados; e, acima de tudo, os infiltrados (e sua descendência deformada) que teriam ascendido ao episcopado.

Nos últimos anos, essa situação problemática saiu ridicularizada dos reinos da “teoria da conspiração”, para se tornar uma explicação plausível para os níveis de corrupção, negligência e indiferença dos episcopados ocidentais. O fato de nunca podermos quantificar, precisamente, o grau de infiltração, não é motivo para se ignorar a realidade.

Além disso, não podemos dizer que não fomos avisados. O ex-comunista e célebre converso Douglas Hyde revelou há muito tempo que, na década de 1930, a liderança comunista havia adotado uma política mundial sobre a infiltração da Igreja Católica.

No início dos anos 50, a Sra. Bella Dodd também estava fornecendo explicações detalhadas sobre a subversão comunista da Igreja. Falando como ex-oficial de alto escalão do Partido Comunista Americano, a Sra. Dodd disse: “Na década de 1930, colocamos mil e cem homens no sacerdócio para destruir a Igreja por dentro”. A idéia era que esses homens fossem ordenados e assumissem posições de influência e comando, como monsenhores e bispos. Uma dúzia de anos antes do Vaticano II, ela afirmou: “Agora eles estariam nos lugares mais elevados da Igreja”, de onde trabalhariam por mudanças que enfraquecessem a eficácia da Igreja contra o comunismo. Ela também afirmou que essas mudanças seriam tão drásticas que, afinal, “não se reconheceria mais a Igreja Católica”.

A Sra. Dodd, que se converteu à fé no final de sua vida, estava pessoalmente familiarizada com esse projeto diabólico, visto que, como agente comunista, parte de sua missão era incentivar jovens radicais (nem sempre comunistas de carteirinha) a entrar em seminários católicos. Somente ela havia encorajado quase mil jovens a se infiltrarem nos seminários e ordens religiosas!

Um monge, que assistiu a uma palestra de Bella Dodd no início dos anos 1950, relembrou: “Eu escutei aquela mulher por quatro horas e ela deixou meu cabelo arrepiado. Tudo o que ela disse foi cumprido ao pé da letra. Poder-se-ia pensar que ela fosse o maior profeta do mundo, mas ela não era profeta. Ela estava apenas expondo, passo passo, o plano de batalha da subversão comunista da Igreja Católica. Ela explicava que, de todas as religiões do mundo, a Igreja Católica era a única temida pelos comunistas, por ser o seu único oponente efetivo. A ideia era destruir, não a instituição da Igreja, mas antes a fé do povo, e até usar a instituição da Igreja, se possível, para destruir a fé através da promoção de uma pseudo-religião: algo que se assemelhasse ao catolicismo, mas que não o fosse realmente. Uma vez que a Fé fosse destruída, ela explicou que haveria um complexo de culpa introduzido na Igreja, para rotular a Igreja do passado como sendo opressiva, autoritária, cheia de preconceitos; e arrogante, ao alegar ser a única possuidora da verdade, terminando por ser responsável pelas divisões ocorridas em seu corpo ao longo dos séculos. Isso bastaria para envergonhar os líderes da Igreja, já dispostos a uma abertura ao mundo, e a uma atitude mais flexível em relação a todas as religiões e filosofias. Os comunistas explorariam essa abertura para minar a Igreja ”.

Essa conspiração foi confirmada repetidas vezes por desertores soviéticos. O ex-oficial da KGB, Anatoliy Golitsyn — que desertou em 1961 e em 1984 previu com 94% de precisão todos os desenvolvimentos surpreendentes no Bloco Comunista a partir de então —, confirmou há vários anos que essa “penetração das igrejas católicas e outras” era parte da “linha geral do partido na luta contra a religião”.

Centenas de arquivos secretos sobre o Ocidente, revelados pelo antigo arquivista da KGB, Vassili Mitrokhin, publicados em 1999, contam uma história semelhante: a KGB cultivaria as relações mais próximas possíveis com católicos “progressistas” e financiaria suas atividades. Um dos órgãos esquerdistas identificados foi a pequena agência de imprensa católica italiana Adista, que durante décadas promoveu todas as causas pós-conciliares imagináveis ou “reformas”, e cujo diretor foi mencionado, no Arquivo Mitrokhin, como agente remunerado pela KGB. Curiosamente, pouco antes da exposição de Mitrokhin, foi justamente a pequena Adista que o cardeal Martini, ultramodernista, utilizou para difundir seu discurso dissidente no Sínodo Europeu de 1999, onde, entre outras coisas, propôs um “novo Concílio”.

No entanto, o que muitas vezes se esquece, em tudo isto, é que o comunismo (junto com o movimento da Nova Era) é simplesmente a principal ferramenta da Maçonaria; sua política de infiltração na Igreja é apenas uma extensão do plano maçônico claramente exposto em Alta Vendita e outros documentos maçônicos, logo percebidos pelos Papas. Mesmo especialistas como Anatoliy Golitsyn não entenderam este ponto. Em O engano da Perestroika (1996), sua coleção de análises e previsões muito precisas submetidas à CIA durante o período 1985-95, ele insinua haver uma força controladora por trás do comunismo soviético, mas carece das “condições para estudar como poderia estar operando”, ocultamente, alguma organização poderosa. Ao mesmo tempo, ele lamenta que, apesar dos aplausos públicos pela precisão de suas previsões, os líderes ocidentais têm regularmente ignorado seus avisos. Não consegue perceber que, tendo financiado e alimentado o comunismo russo desde seu início, a elite maçônica (em aliança simbiótica com bilionários transnacionalistas que articulam negócios mundiais pelas razões mais prosaicas de poder e lucro) nem sempre dará liberdade aos caprichos de Bill Clinton, que atribui “muitas rupturas” em sua vida aos quarenta anos de filiação à Ordem Maçônica de De Molay.

Existem, é claro, teorias de conspiração logicamente implausíveis e simplesmente tolas. No entanto, como atesta a generalizada infiltração homossexual da Igreja pós-conciliar, a idéia de que homens maus nunca se procuram para trabalhar juntos é ainda mais tola. Além disso, a insistência dos propagandistas liberais de que não há conspiração maçônica (auxiliada e estimulada por companheiros de viagem) é, sem dúvida, a maior conspiração de todas. Como E. Michael Jones esclarece em sua análise dessa tentativa de propaganda, que distorce e deturpa fontes históricas primárias — como o ex-maçom Abbe de Barruel, que escreveu no final do século XVIII que “o objetivo de sua conspiração [maçônica] é derrubar todos os altares onde Cristo é adorado” —, o establishment liberal procura proteger e manter a todo custo o espírito niilista do Iluminismo; é o legado maçônico que sustenta esse artifício dissoluto e decadente que chamamos de Modernidade.

Como muitos de nossos Pastores se curvaram às insidiosas forças do Iluminismo e abraçaram a Modernidade, pode-se dizer que todas essas ruminações são agora supérfluas; e que, com a mentalidade liberal secular tão arraigada dentro da Igreja, toda a tese da infiltração/subversão se tornou puramente acadêmica. No entanto os católicos, em especial, devem saber mais sobre tudo isso; sobre como distinguir aquilo que é real de “conspirações” de maçons e comunistas escondidos debaixo da cama. E uma vez que os bispos não estão dispostos a alertá-los ou explicar a diferença, esta edição da revista, embora soe inquietante para alguns, buscará preencher uma lacuna.

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