A Inquisição constitui assunto de eterno interesse, que até hoje continua despertando apaixonados debates. Tentou-se já o levantamento das obras por toda parte sobre ela publicadas, mas a pesquisa é difícil e precários os números apresentados. Basta sabermos que há alguns milhares de trabalhos dedicados ao seu estudo e que, para lê-los todos, não seria suficiente a inteira vida de um homem.

A história autêntica, ou oculta, da tenaz campanha acusatória de que foi sempre objeto talvez nunca seja por inteiro desvendada; o certo é que a preocupação de atacá-la traz, subjacentes, variáveis mas fortíssimos interesses políticos, econômicos e religiosos.

Nas investidas se congregam ‘os protestantes, os judeus e correntes de pensamento que chamaremos de “liberais”, com múltiplos matizes, orquestrando todos formidável montagem propagandística, que atravessa os séculos. O público, ávido de mistérios,e de narrativas escabrosas, se deixa envolver, mesmo porque é fácil despertar nas pessoas a simpatia pelos perseguidos de qualquer espécie, cujos sofrimentos são exaltados. A Inquisição se tornou assim um arquétipo, um símbolo universalmente aceito de intolerância, prepotência, crueldade; e a ela ficou sobretudo ligada, de modo indissolúvel, à Espanha: quando se fala naquela, todos logo pensam nesta, como re flexo condicionado.

A ofensiva principiou no século XVI, quando esse: país se converteu na maior potência mundial, quando Espanha e Portugal dominaram o comércio marítimo, fundaram imensos impérios coloniais e buscaram o monopólio das riquezas. Tal hegemonia despertou a cobiça dos protestantes, tendo à frente a Holanda, que ansiava por assenhorear-se do tráfico internacional. A propaganda desmoralizadora foi uma das grandes armas utilizadas: valendo-se da imprensa recém-inventada, os protestantes inundaram a Europa de livros e panfletos, todos insistindo em denegrir a imagem dos papas, da Igreja e dos católicos ibéricos. O combate foi engrossado pelos anglo-saxões, logo que ambicionaram o domínio do mundo. A técnica utilizada para atacar o catolicismo foi sempre a mesma: o leitmotiv era a figura de uma Espanha dirigida pelo clero, por isso atrasada, obscurantista e, em conseqüência, reduzida afinal à pobreza. Para a campanha, com muito empenho sempre contribuíram também os judeus, que se consideram grandes vítimas da Inquisição.

Esse clima, cuidadosamente preparado, recebeu mais adiante o reforço do movimento iluminista do século XVIII, o “século das luzes”. Tomados de feroz anticlericalismo, os enciclopedistas franceses, com Voltaire à frente, converteram a Inquisição na sua principal arma de combate à Igreja. Tratava-se, diziam, de instrumento de opressão contra as liberdades individuais, manejado por um clero fanático e corrupto, desejoso de manter o povo na ignorância e que se impôs pela tortura. Aludem a “esse terrível tribunal que julga os pensamentos dos homens” (Encyclopedie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers (1765), tomo VIII, pág. 773), e completam: “Por acréscimo é um padre; é um monge, dedicado à caridade e à doçura, que faz aplicar a homens, em vastos e profundos calabouços, torturas as mais cruéis” (ib., pág. 775).

As mesmas idéias, as mesmas palavras, idênticos chavões continuaram sendo utilizados, como num cantochão, com infatigável insistência pelas correntes liberais do século XIX e chegaram até nossos dias. Reproduzem-nos todos os adversários da Igreja: os que se intitulam “homens arejados”, porque adeptos da liberdade de pensamento e inimigos de qualquer censura; os ateus, os materialistas, os agnósticos, os comunistas, porque se opõem a qualquer religião institucionalizada.

Cumpre não esquecer também a relevante contribuição moderna de certos psicanalistas que se servem da Inquisição, ‘da tortura, da crença nos demônios, do papel da mulher, do combate às bruxas, etc., para investirem contra a Igreja. Sobranceiros em sua linguagem empolada e quase impenetrável, esses novos críticos não alcançam a dimensão sobrenatural dos problemas e ignoram o fato da divindade de Cristo.

Hoje, muito tempo já passou desde aqueles recuados séculos em que a Igreja detinha poder de vida e de morte sobre as pessoas, tudo está mudado, o mundo é outro, problemas novos surgiram, de sorte que o estudo da Inquisição deveria ter perdido quase todo o interesse; mas, curiosamente, ela permanece viva, a produção bibliográfica que lhe é dedicada mantém-se abundante, editam-se obras novas e reeditam-se as antigas. Na medida em que sentem o catolicismo indestrutível, os adversários procuram, na Inquisição, o seu “calcanhar de Aquiles” e se unem para não deixarem o assunto perecer. Com o Tribunal do Santo Ofício, a Igreja pretendeu defender a própria integridade. Paradoxalmente, no entanto, o efeito se tornou depois inverso, e o fato de ter existido esse tribunal se acabou convertendo na mais possante máquina de guerra contra ela dirigida.

Estudiosos católicos já reiteradamente colocaram os acontecimentos históricos em suas corretas dimensões, já tudo explicaram, já reconheceram humildemente os erros e os excessos praticados pela Inquisição; o que todavia pouco ou nada adianta, porque o que os detratores objetivam é justamente o escândalo; há interesse em manter vivo o arquétipo, e as mesmíssimas críticas são reiteradas à exaustão, como se jamais tivessem sido respondidas.

Assim, os debates seguem contundentes, apaixonados, insolúveis. Para suscitar revolta e angústia nos leitores, utilizam-se expressões muito fortes, argumentos ad terrorem, com extrema agressividade. Masmorras, suplícios, fogueiras… Um escritor atual resume a Inquisição nestes termos: “Tribunais , secretos, com julgamentos arbitrários e sem recurso, baseados em depoimentos de testemunhas sem rosto, encarniçados em destruir vidas humanas para castigar pretensos crimes, quase sempre de essência religiosa, e dos quais cabia freqüentemente ao acusado adivinhar e definir ele próprio a natureza” (Frédéric Max, Prisonniers de l’Inquisition, Paris, 1989, pág. 11). Ou então se opta pelo artifício da manhosa ironia: “Em presença de excessos cometidos outrora pelo partido ao qual aderimos, a técnica muito simples consiste sempre em denegrir as vítimas, de uma parte, de outra em assegurar que os suplicios eram necessários à boa ordem, menos numerosos aliás do que se diz, e conformes ao espírito dos tempos […]. Esse tipo de apologética não é especial dos defensores dos crimes papistas aqui e «parpaillots» acolá: os fanáticos e os aproveitadores de ideologias em nossos dias não sentem diferentemente” (Marguerite Youcenar, Archives du Nord, Ed. Gallimard, 1977, págs. 53-54).

A comprovar o nível baixíssimo atingido por alguns detratores, há os que chegam até mesmo à desonestidade intelectual de equiparar a Inquisição católica às façanhas do nacional-socialismo germânico das décadas 1930-1940, fingindo não perceber a óbvia e abismal diferença que os separa. Na Alemanha nazista, não nos olvidemos, sob a liderança de um desequilibrado mental, montou-se a farsa da “raça superior”, que se auto-atribuía o direito de escravizar ou, quando isto melhor conviesse, exterminar os “povos inferiores”, pelos quais nutria o maior desprezo; e milhões de seres humanos foram estupidamente assassinados. O cristianismo, inclusive durante a Inquisição, sempre viu os homens como essencialmente iguais entre si e merecedores de total respeito, porque todos criados à imagem e semelhança de Deus.

Verifica-se enfim que, “desde seu estabelecimento, a Inquisição fascina e perturba — não tanto pelo que ela foi «realmente» (e que durante muito tempo foi mal conhecido), mas pelo que o inconsciente coletivo quis ver unicamente nela: uma instância de tortura e de morte, um elemento de repressão ideológica a serviço de todos os totalitarismos, religião e aparelhos do Estado” (Jean-Pierre Guicciardi. Introdução à obra de André Morellet, Abrégé du Manuel des Inquisiteurs, Grenoble, 1990, pág. 7).

(João Bernardino Gonzaga bacharelou-se em Direito pela Universidade de São Paulo e doutorou-se pela Faculdade de Direito de Paris. Especialista em Direito Penal, foi Professor Titular de Direito Penal nas Faculdades de Direito da Universidade de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi ainda presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Penais e autor de numerosos livros e artigos. O texto publicado em Opus Matris Dei, “Exame crítico da inquisição”, é um capítulo de sua obra A Inquisição em seu mundo, lançada originalmente pela editora Saraiva e agora relançada pela editora Quadrante. O livro é produto de uma abordagem séria sobre o assunto, analisado como fenômeno histórico imerso na atmosfera que a envolveu e sob a influência dos fatores culturais, políticos, sociais, econômicos, religiosos e científicos à época existentes. Prof. João Bernardino Gonzaga realizou uma análise profunda e serena da Inquisição européia, mostrando-a não como um fato isolado, mas dentro das condições de vida que a explicam e a justificam).

O livro A Inquisição em seu mundo, de João Bernardino Gonzaga, está à venda aqui: https://www.quadrante.com.br/autores/autores/jo-o-bernardino-gonzaga