Numa tarde de verão, em 1922, uma jovem italiana de dezessete anos foi à Basílica de São Pedro para rezar, em companhia de uma amiga. De família nobre, era marquesa e natural de Údine; desde muito pequena, vivia em Roma com a mãe viúva. Na igreja, caminhando sob a abóbada do grande templo, reparou num padre que passava por ali e sentiu uma grande vontade de confessar-se (vivia as dúvidas da fé próprias da idade). Foi logo ao seu encontro. O padre — na verdade, um frade capuchinho — de pronto concordou e foram a um dos muitos confessionários da basílica.

Foi uma longa conversa. Giovanna Rizzani — esse era o nome da jovem — começou a abrir o coração, com inesperada confiança naquele sacerdote que a ouvia e aconselhava. Tanto gostou de suas palavras que, depois da absolvição, sentou-se por ali perto, aguardando que o frade saísse: pediria seu endereço para poder ouvi-lo mais vezes.

Ela e amiga esperaram, esperaram… O frade, inexplicavelmente, nunca saía do confessionário, sem ninguém que se apresentasse para confissão durante o tempo em que esteve à espera. Já quase à hora de fechar-se a igreja, a jovem decidiu ir até o confessionário. O sacristão, que a acompanhou, chamou o frade; nenhuma resposta. Aberta a pequena cortina, Giovanna viu que o frade já não estava no assento.

No ano seguinte, outro frade apareceu na vida daquela jovem: ouviu falar de um capuchinho que numa pequena cidade da Puglia (São Giovanni Rotondo) tinha recebido nas mãos e nos pés os mesmos estigmas de São Francisco de Assis; e fazia muitos milagres. Era grande o número de peregrinos que para lá se dirigiam, sobretudo para com ele se confessarem. Com a fé cristã renovada, a jovem decidiu partir para São Giovanni Rotondo.

Na capela cheia de gente, conseguiu um lugar na primeira fila para assistir à Missa celebrada pelo já famoso frade. Quando passou por ela, a caminho do altar, o frade parou e lhe disse, sorrindo, fitando-a nos olhos: “Giovanna, eu te conheço. Você nasceu no mesmo dia em que morreu teu pai.”

A jovem espantou-se. Como sabia seu nome? Como conhecia aquela estranha circunstância de sua vida? No dia seguinte, depois de aguardar ansiosamente a sua vez, ajoelhou-se para confessar e ouviu do frade: “Enfim, você veio. Há muito que te esperava.” Giovanna disse que, na certa, ele a estava confundindo com outra pessoa, pois era a primeira vez que vinha àquela cidade.

O frade contou-lhe, a seguir, duas coisas surpreendentes. A primeira, que tinha sido ele o seu confessor em Roma, na Basílica de São Pedro. A segunda, que ele fora conduzido pela Virgem Maria, dezoito anos atrás, ao palácio dos pais de Giovanna em Údine, no dia do seu nascimento; e que Nossa Senhora lhe havia confiado a recém-nascida, de cuja alma o frade deveria cuidar.

A jovem chorou tudo o que tinha direito. Finalmente, reencontrava o misterioso confessor que se evaporara do confessionário romano, do qual ouvira coisas pessoais que ele jamais poderia conhecer. Muitos anos mais tarde, Giovanna receberia de um companheiro de congregação do frade uma folha de caderno em que este, de próprio punho (com a data de fevereiro de 1905), havia relatado a estranha viagem espiritual — uma das tantas bilocações que esse frade teria em seus oitenta e um anos de vida — feita a certo palácio de Údine, no qual um pai morria ao mesmo tempo em que lhe nascia a filha. Eis a narrativa do frade:

“Há alguns dias aconteceu-me um fato insólito. Por volta da 23 horas do dia 28 do mês passado, e enquanto eu me encontrava no coro com frei Anastasio, dei comigo a grande distância, numa casa senhorial, onde o pai morria, ao mesmo tempo que uma menina nascia. Apareceu-me então Maria Santíssima, que me disse: ‘Confio-te esta criatura. É uma pedra preciosa em estado bruto: trabalha-a, torna-a o mais reluzente possível, para que um dia possa adornar-me. Não duvides ela própria virá ter contigo, mas primeiro a encontrarás em São Pedro.’ Depois disso, dei comigo novamente no coro.”

O frade chamava-se Pio — o nosso Padre Pio, hoje São Pio de Pietrelcina. E a jovem udinense seria uma de suas mais queridas filhas espirituais. Essa história espantosa está no livro Padre Pio, um santo entre nós, de Renzo Allegri (edições Paulinas, 2012). O biógrafo, que conheceu Giovanna já velha, pode verificar com os próprios olhos o trabalho de joalheria do Padre Pio. De fato, achava-se diante de uma mulher extraordinária, de espírito fascinante e vivo, uma reluzente pedra preciosa, apesar dos seus avançados 78 anos — nascida no mesmo instante em que se iniciava a  miraculosa “viagem” do Padre Pio: às 23 horas do dia 28 de janeiro de 1905.