Os filósofos gregos antigos, preocupados com o destino do ser humano, sabiam que felicidade era algo que transcendia o mundo material. Heráclito de Éfeso, pensador pré-socrático, já dizia: “Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, felizes seriam os bois quando possuem ervilhas para mastigar”. O homem feliz, para Aristóteles, era aquele que procurava conhecer o verdadeiro bem e praticá-lo. Para os pensadores estoicos, sábio e feliz era o homem que conseguia frear os impulsos e as paixões.

A modernidade inverteu a coisa. Para o ateu Freud, por exemplo, felicidade não passava de suspensão da dor. No que foi contestado pelo seu conterrâneo austríaco Konrad Lorenz, médico e zoólogo. Lorenz afirmava que o homem feliz é o que atinge seu objetivo, geralmente com sacrifício. E dava, como exemplo, o alpinista que chegava ao topo da montanha todo ferido e alquebrado — mas feliz. Lorenz não perdoava nossa civilização farmacológica, que dispõe de remédios para todas as dores; e garantia que a ausência de sofrimento era o mais rápido caminho para o tédio, que chamou muito bem de “tepidez mortal”.

No contexto cristão, que tem grandes afinidades com o melhor do pensamento grego, a felicidade também não consiste nos prazeres do corpo, mas na plena realização do espírito. Para os seguidores de Cristo, felicidade jamais será sinônimo de prazer material. “Quem não toma a sua cruz e não Me segue, não é digno de Mim”, avisou Jesus (São Mateus, X, 38). Só é verdadeiramente feliz quem aceita a própria cruz e O segue. Prova-o os grandes santos que, com todas as suas dores, eram pessoas misteriosamente felizes, pois sabiam estar a caminho da eternidade, “lugar” da felicidade perfeita.

O homem, enquanto tomado pelos impulsos e pelas paixões, nunca terá paz, pois está sob o jugo da pior das ditaduras. A paz, a verdadeira paz interior, é produto de uma luta permanente contra os ídolos deste mundo, produzidos pela soberba, a inveja, a preguiça, a ira, a pornografia, o consumismo, a gula. Diz cheio de razão o velho ditado latino: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. O cristão, que sabe ser dos violentos o Reino dos Céus, vai além e, para conquistar a paz, parte para a guerra mais terrível que existe: a guerra contra si mesmo, lutando para controlar os sentimentos e emoções desordenados que sitiam o seu coração.

O poeta americano Wallace Stevens, que viveu como um materialista convicto, nos últimos dias de sua vida passou a ter, no hospital, um comportamento inusitado para os seus padrões habituais de austeridade: tratava as enfermeiras com bom humor e uma jovialidade que não era do seu feitio. Soube-se, depois, pelo padre que com ele esteve naqueles momentos, que o poeta havia se convertido ao catolicismo. Ser católico, não de aparência, mas de fato, tornou-o um homem melhor naquela hora decisiva da vida. Para o cristão, todas as horas são decisivas.

Quem assimila verdadeiramente o Cristo (ou melhor, quem se deixa assimilar pelo Cristo), sabe que deve dominar as paixões, o que fará dele, inevitavelmente, um melhor cidadão. A vida, como a propõe Jesus, é muito mais decente e mais bela: amar a Deus irrestritamente, sobre todas as coisas, é a única saída para amar de verdade a si mesmo e ao próximo, sem o risco de transformar em ídolos a própria pessoa ou os outros.