Analistas e palpiteiros políticos ainda estão buscando as causas da inesperada vitória eleitoral de Bolsonaro. Sejam quais forem as razões, uma coisa é certa: o filósofo católico Olavo de Carvalho fez o presidente ampliar a sua compreensão do pensamento conservador, levando-o a conhecer melhor os fatores mais profundos do jogo político e da atual cena internacional. Seu best-seller de 2013, O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota (com mais de 300 mil exemplares vendidos), é livro de cabeceira do atual chefe de Estado, que fez questão de mostrá-lo no dia da vitória. Dois ministros foram indicados pelo filósofo, além do novo diretor do Enem.

Olavo de Carvalho tem, hoje, 71 anos e mora com a família em Richmond, estado norte-americano de Virgínia. Foi comunista na juventude, envolveu-se com esoterismo islâmico e mais tarde retornou à fé católica. Não teve formação acadêmica, embora tenha acompanhado na PUC paulistana cursos do filósofo e padre jesuíta polonês Estanislau Ladusãns (que veio para o Brasil em 1947). Também não se inclui no rol dos autodidatas, pois sabe que não há autodidatismo: sempre se aprende com alguém, seja na convivência das escolas, no silêncio das bibliotecas ou no contato pessoal com quem sabe mais.

O primeiro livro de projeção do filósofo, O imbecil coletivo (1996), vai ficar na história da cultura brasileira como marco decisivo da inteligência, toque de alarme para acordar o país já à beira do abismo. Mas o país não ouviu e mergulhou — fundo, fundo, fundo — no enorme oceano fecal em que hoje se encontra. Muitos, hoje, falamos mal do politicamente correto, inclusive na universidade, seu centro gerador, mas não dá para esquecer que quem abriu caminho para melhor evidenciar a imbecilidade do pensamento esquerdista, quase solitariamente, foi Olavo de Carvalho, desde o início dos anos 90.

Olavo de Carvalho foi fundamental para libertar a bibliografia brasileira do jugo marxista. Nosso país sempre se beneficiou com dois tipos de intelectuais: os estrangeiros que vinham para cá (entre os mais famosos, à época da 2º Guerra, estão Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai, Stefan Zweig), ou os brasileiros que saíam do país, para mandar ou trazer informações preciosas do exterior. Olavo de Carvalho, atualmente, é quem melhor representa a segunda modalidade.

Lembro-me de um colega de universidade (o poeta Luís Antônio de Figueiredo) que em 1992 me passou um recorte de artigo do Olavo publicado pela Folha de São Paulo (sim, o Olavo já escreveu na Folha…), sintetizando por escrito tudo o que eu e meu colega de departamento já começávamos a murmurar pelos corredores da Unesp, mas ainda sem coragem de enfrentar o establishment acadêmico com aquelas ideias na contramão. Mais tarde, eu o procuraria sempre, de caderninho em punho, nos artigos e nos programas de rádio pela internet, para anotar as recomendações bibliográficas que, de outra maneira, não chegariam às nossas frágeis taperas acadêmicas.

Dezenas de livros seus estão à venda nas livrarias, sem contar as centenas de vídeos em seu canal do youtube e os milhares de artigos disponíveis em seu site pessoal. Pensador agudíssimo, seus cursos de filosofia, pela internet, têm milhares de alunos, aos quais vai indicando os bons caminhos do pensamento e da cultura ocidental.

(Muitos se alarmam com palavrões que o filósofo usa em seus vídeos mais populares, esquecidos de que cada época exige os seus próprios métodos didático-pedagógicos. A pedagogia do palavrão talvez seja a única que funcione para certo tipo de jovem de hoje, educado pela mentalidade esquerdista, mas já seduzido pela alta cultura).

Creio que uma boa síntese do seu pensamento político esteja nas seguintes palavras: “O movimento revolucionário é, desde suas origens, um esforço para tomar o lugar do Cristo anunciado no Apocalipse e substituí-lo por um agente terrestre no papel de salvador da humanidade. [Cristo] é a fonte e o limite do nosso conhecimento. Ele é a medida, a régua e a balança. Ele é o alfa e o ômega.”