São Norberto era um pregador humilde.
Filho de nobres, ligado pelo berço à família dos imperadores,
Vendeu um dia os seus bens e os distribuiu
Pelos necessitados.
Andava descalço mesmo no inverno.

Quando o fizeram arcebispo de Magdeburgo,
Gemeu e chorou longamente antes de obedecer.
Sua tristeza foi imensa.
Sentiu-se subitamente afastado da sua ambição,
Que era a pobreza neste mundo.
Sentiu-se coroado pelos espinhos de um grave poder.
No entanto, intimado pelo Legado do Papa, obedeceu
E veio de Anvers, onde estava, a Magdeburgo,
Montado num burro e vestido como um mendigo,
Com o seu burel esfarrapado.

Veio vindo pelas estradas meditando.
Pesava-lhe a honraria; o contato com os grandes do mundo o ofendia.
Nunca desejara Norberto o comando da Igreja.
Queria apenas transmitir a fama do Cristo
Pela palavra e fundar conventos.
Queria ser um dos últimos, o último, se possível,
Na escala das grandezas.

Sua sede de pobreza era inesgotável
E o devorava.
Quanto mais pobre, quanto mais nu dos bens do mundo,
Mais próximo se sentia o Santo do Coração de Deus.

Veio vindo na triste montaria,
Carregando a cruz da sua investidura,
Até avistar, de longe, a cidade.
Então saltou e, como sempre, de pés nus,
Continuou o resto da viagem
E o seguiam o clero e o povo vindos ao seu encontro.

E, depois de entrar, em mortificante triunfo,
Em Magdeburgo, e depois de empossado como Bispo,
Levaram Norberto com acompanhamento luzido
Aonde devia viver.
Aconteceu, porém, que o porteiro, não o conhecendo, o distinguiu entre todos,
Proibindo-lhe que atravessasse os portais do Palácio,
Porque não era aquela a hora dos pobres entrarem,
Nem justo que um pobre incomodasse os Ricos e o Clero
E com eles viesse misturado.

Ao ouvirem tratar, assim, Norberto, os poderosos
Clamaram contra o porteiro, em termos violentos,
Avisando-o de que estava perdido,
Pois o Pobre era o próprio Senhor.
Ouvindo isto, fugiu o guardião, temeroso e turbado,
E corria. E eis que Norberto o perseguia, sorrindo,
E lhe ia dizendo:
— Por que foges, irmão, se entre todos
Foste o único a me reconhecer?

(In Augusto Frederico Schmidt, A fonte invisível, 1949)