Brian Moore nasceu em Belfast em 1921 e era católico. Dado o lugar de sua infância, seu catolicismo deve ter sido “um campo de batalha”. Depois da guerra, que o viu trabalhando para o governo britânico na África, França e Itália, ele se estabeleceu no Canadá, onde começou carreira no jornalismo. Dedicou-se então ao romance e roteiros do filme. Neste último campo, é seu o roteiro do filme A cortina rasgada (de Alfred Hitchcock, com Paul Newman e Julie Andrews, 1966). Morrendo em 1999 em Malibu, Califórnia, Moore teve vários de seus romances traduzidos para o italiano, incluindo A caça, em 1995, de onde saiu um filme estrelado por Michael Caine.

Em 1972, ele escreveu um romance curioso, Católicos, publicado na Itália por Lindau (95 p., € 12). Interessa-nos aqui o assunto, que é em muitos aspectos singularmente profético. O autor imagina que, em um futuro não especificado, na esteira das atualizações desencadeadas pelo Concílio Vaticano II, a Igreja colocou o ecumenismo em primeiro lugar em sua escala de prioridades. Daí uma série de conseqüências, próprias do plano inclinado… A Igreja Católica se uniu a uma organização que reunia todas as confissões religiosas e estava baseada em Amsterdã.

A Missa, para amenizar aquilo que para os outros credos era inaceitável, tornou-se um mero símbolo: ia-se à igreja só para celebrar o “Deus-nos-outros”, não mais a Paixão de Cristo. A comunhão não era mais a solene ingestão do Corpo de Cristo, mas uma refeição comunitária que selava a fraternidade entre os participantes do rito. A batina no clero foi abolida, assim como nos religiosos. Finalmente, o Vaticano  iniciou negociações para construir uma espécie de comunhão com o budismo, e os encontros para estabelecer o acordo já estavam em andamento, tanto na Ásia como em Roma.

Enquanto isso, no entanto, algo estranho aconteceu: a BBC transmitiu um serviço religioso que causou sensação. Em uma pequena ilha, na costa norte da Irlanda, um mosteiro da ordem “albanesiana” celebrava uma Missa em latim (sim, aquela de São Pio V). O isolamento (os monges não tinham TV ou rádio) incentivava o fenômeno. Só que, após a transmissão da BBC, multidões de peregrinos de todo o mundo invadiram a ilha. Enfrentando inconvenientes consideráveis ​​(chuva, frio, lama), muitas pessoas fretavam vôos só para participar dessa Missa.

Havia mais, porém. Se o sacramento da confissão era então considerado obsoleto, e a Igreja só convocava ritos coletivos de reconciliação comunitária, na ilhota irlandesa continuava-se a praticar a confissão auricular e individual. E longuíssimas filas de penitentes invadiam o mosteiro irlandês em busca de confessionários. Repita-se: Moore imaginou tudo isso em 1971, se não antes. E, outra vez, profeticamente, ele imaginou a reação da hierarquia do Vaticano ao fato, quando se viu a segunda transmissão da BBC, que documentava o sucesso inesperado das “velharias” sobreviventes na pequena ilha irlandesa.

A primeira preocupação do Vaticano foi “normalizar” a situação anômala. Um inquisidor foi enviado ao lugar com plenos poderes. Levava uma carta imperativa do superior geral albanesiano ao abade irlandês: devia parar imediatamente com aquelas antiguidades e se adaptar às novas diretrizes em curso, sob pena da transferência forçada do abade e a dissolução do mosteiro. O enviado era um padre americano de origem propositalmente irlandesa, realmente surpreendido ao ver monges vestidos como monges, vivendo de acordo com os ritmos da regra antiga (os quais entendiam, perfeitamente, as razões de sua vinda).

E um deles disse-lhe, com clareza: “Esta nova Missa não é um mistério, mas uma piada, um nhenhenhém; não se dirige a Deus, mas ao nosso próximo; é por isso que é em inglês, em alemão, em chinês e em todas as outras línguas que as pessoas falam na igreja. Eles dizem que é um símbolo, mas um símbolo de quê? É um show, eis o que é”. O final da história é pessimista: o abade, obtorto collo [constrangido], obedece à ordem. Moore, melhor para ele, morreu antes de ver a ascensão do clero “arco-íris”.

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