Santo Agostinho (354-430 d. C), o último grande filósofo da Antiguidade, também pode ser considerado o primeiro grande pensador medieval: viu cair os primeiros muros do império romano, mas a influência de sua obra cresceria sempre mais durante a Idade Média. Marcou profundamente o pensamento medieval; sua obra, Cidade de Deus, foi muito apreciada nos dez séculos seguintes e lançou as bases da filosofia cristã da história.

Como Santo Agostinho concebia a história humana? Segundo o bispo de Hipona, dois amores opostos tinham fundado duas cidades distintas: o amor a Deus e desprezo de si mesmo criou a Cidade de Deus; e o amor de si, com desprezo de Deus, lançou as bases da “cidade dos homens”.

Essa divisão do mundo em duas cidades tem um antecedente no mundo espiritual, antes da criação do universo físico. Houve um “momento” em que Deus concedeu aos anjos a liberdade de escolha: permaneciam com o Criador — ou não… O Diabo, líder dos espíritos rebeldes, recusou-se a servir (“Non serviam”, “Não servirei”), ao contrário do arcanjo Miguel, que humildemente continuou unido a Deus.

Assim, a “cidade dos homens” foi produto de uma forte dissidência, uma recusa decidida em seguir as diretrizes que o planejador divino havia pensado para a Criação. Já se manifestava, naquela luta angélica, a dualidade que mais tarde se repetiria no Pecado Original, com a desobediência de Adão e Eva. Os dois anjos são os “patronos” das duas cidades: o Diabo está para a “cidade dos homens” assim como Miguel para a Cidade de Deus.

Essas duas “cidades” marcariam toda a história humana, podendo manifestar-se na mesma família, na mesma rua, no mesmo bairro, na mesma instituição etc. A Cidade de Deus é peregrina: desceu do céu, caminhará pela Terra e depois voltará ao ponto de partida, enquanto a “cidade dos homens” provém de baixo, lutará com a outra Cidade durante a História, e um dia retornará aos abismos.

A Cidade de Deus tem como estatuto principal os Dez Mandamentos e as virtudes cristãs, enquanto a “cidade dos homens” promove uma substituição permanente desses princípios eternos, em nome de uma mentalidade revolucionária que tudo nega em nome da afirmação do homem.

Foi essa filosofia da história que orientou a cultura e a civilização medieval. Sem essa perspectiva é difícil compreender o papel que as ideias cristãs desempenharam nos mil anos de duração da Idade Média, a qual, vivendo tão profundamente essa convicção agostiniana, não hesitava em cometer as maiores e aparentes “loucuras” em defesa do Reino de Deus: as Cruzadas e a Inquisição são provas desse amor cavalheiresco do homem medieval por Cristo, que o homem contemporâneo não consegue compreender. A Idade Média foi um barco conduzido pelos ventos cristãos; só começou a fazer água quando outra ventania começou a soprar violentamente no sentido contrário, à época da Renascença paganizante, provinda da Antiguidade greco-romana.

Poder-se-ia estranhar que Santo Agostinho tenha usado a expressão “cidade dos homens” para designar justamente uma criação demoníaca, mas isto se justifica se recordarmos que nada deste mundo é do homem, senão primeiramente de Deus, que nos emprestou provisória e misericordiosamente o mais belo dos planetas para algumas décadas de vida preparatória à vida definitiva.

Santo Agostinho foi, ele próprio, um desses habitantes da “cidade dos homens” que migrou para a Cidade de Deus, conforme relata em seu belíssimo livro “Confissões”, biografia espiritual escrita justamente para revelar o trânsito que fez sua alma do pecado para a graça, lamentando haver descoberto tão tardiamente o amor divino: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova!” É o lamento de todo convertido quando, ao olhar para trás, verifica a inutilidade e o vazio do tempo anterior à descoberta de Deus.

A obra desse gênio filosófico e teológico nunca esteve tão viva, sobretudo hoje, quando experimentamos na própria carne a mais terrível de todas as guerras: a Igreja do Deus que se fez Homem lutando contra a igreja do homem que se fez deus (são palavras do Papa Paulo VI).