Professora Hanna-Barbara Gerl-Falkovitz

Hanna-Barbara Gerl-Falkovitz é professora emérita de Filosofia das Religiões e Ciências Religiosas Comparadas na Universidade de Dresden. A estudiosa alemã receberá na sexta-feira, 9 de novembro, em Bassano del Grappa (Itália), o Prêmio Internacional Medalha de Ouro ao Mérito da Cultura Católica de 2018, por propor “à cultura da Europa a katholische Weltanschauung (visão de mundo católica) como critério de vida pessoal e coletiva”. (Entrevista realizada por Paolo Facciotto para La Nuova Bussola Quotidiana)

Qual é o aspecto de maior relevância no pensamento de Guardini?

Guardini é um educador da verdade. Seu pensamento de que verdade e amor são intensamente unidos — já está nos primeiros anos e se estende por todas as suas obras — é muito oportuno. Soa-nos bem familiar. Mas, em sua primeira obra-prima, O Espírito da Liturgia (1918) — em que há capítulo intitulado “A primazia do logos sobre o ethos” —, Guardini mostra que na ordem da vida a verdade, de forma absoluta, é o primeiro passo: “A verdade é a verdade, independentemente do nosso consentimento ou não”. Hoje há uma presença esmagadora do amor e da misericórdia, tanto na esfera religiosa quanto na esfera social. Mas sem a verdade — a análise verdadeira da situação — o amor torna-se desdentado e sentimental. A primeira orientação de Guardini é para as “coisas” e os “fatos”, para a realidade (contra sonhos romanescos e utópicos), tanto na ética como na religião. Isto é ainda mais importante, porque os seres humanos são colaboradores na salvação do mundo e devem abri-lo para a “nova terra e o novo céu” finais. Colaboradores de Deus, primeiro na verdade, depois no amor. Alterar essa seqüência interna significa trazer apenas desordem e desilusão. Guardini é um professor de (auto) educação: antes de agir vem o conhecimento da verdade, da realidade e até dos compromissos do amor. Caso contrário, criam-se ilusões utópicas e o caos aumenta.

Você estudou em particular o século XIX e o XX: o que pode “salvar” da filosofia contemporânea? Ou, em outras palavras: é possível unir o tomismo e a filosofia contemporânea? Pode um cristão católico pensar de maneira católica usando as categorias da filosofia contemporânea?

A filosofia contemporânea é multiforme. É o mainstream do relativismo, incluindo o relativismo cultural, a aceitação do subjetivismo ético, a crença na liberdade do eu pós-moderno, a construção e desconstrução do próprio corpo ou do próprio sexo na teoria de gênero, sem esquecer o niilismo: a “morte” de Deus. Estes são os cumes de uma auto-invenção aparentemente ilimitada da auto-entronização do ser humano, agora também tendendo a uma espécie de imortalidade técnica e digital. Os pais desta hipertrófica auto-invenção são conhecidos: Nietzsche (um tanto ambíguo), Wolfgang Abendroth (relativismo), Richard Dawkins (Novo Ateísmo “científico”), Judith Butler (gênero)… Mas é igualmente certo que há conceitos filosóficos sérios, orientados para a realidade objetiva. Antes de tudo a fenomenologia (por exemplo, Edith Stein) que analisou os fenômenos de forma metodicamente sóbria, tendo como resultado uma abordagem objetiva dos conceitos medievais de realidade (Tomás de Aquino, Duns Scotus). Muitos estudantes treinados com Husserl, nesse tipo de “abertura dos olhos”, se converteram a uma fé viva em Deus. O ramo mais jovem da fenomenologia alemã e, especialmente, francesa (Waldenfels, Marion, Henry) também tem dado excelentes resultados: a razão e a revelação se iluminam reciprocamente, pois razão e fé derivam da mesma fonte. Na Alemanha, Josef Pieper recuperou Tomás de Aquino para criticar a filosofia existencial e agnóstica contemporânea. E Pieper inspirou profundamente o Papa Bento XVI. O tomismo clássico, como acesso à realidade, pode ser integrado à fenomenologia.

Na sua opinião, a Igreja hoje deveria travar uma batalha cultural contra o neo-modernismo, ou o risco de cair nas heresias modernistas não existe e, portanto, não há nada que combater?

O risco da Igreja é o desejo de abraçar a cultura neo-moderna. Este risco é legítimo (sem risco não há sucesso), mas o perigo é evidente: cair em uma pacificação. O sucesso é duvidoso. Estamos muito profundamente envolvidos para saber qual será a parte vencedora. Muito problemático é o fato de que a teologia científica está criticando termos clássicos, até mesmo dogmáticos, como “personalidade” (de Deus), “transcendência”, “ontologia”, sem substituí-los por melhores expressões.Para o meu olhar (filosófico), acreditar também é uma questão de pensamento. O intelecto é uma dádiva de Deus. A Igreja poderia promover mais a educação filosófica dos sacerdotes e dos leigos. Eu trabalhei por 19 anos em uma sociedade 80 % agnóstica (Dresden), ensinando filosofia da religião — e só os estudantes mais inteligentes participaram das lições.

Nos últimos anos, você examinou criticamente as teorias de gênero. Ha algumas semanas em seu país, a Alemanha, foi reconhecido o chamado “terceiro sexo “, um tema que também apareceu num seu artigo crítico de 2006. O que teria dizer sobre isso?

Não há terceiro sexo. Nem de um modo biológico nem de um modo psíquico. O Estado alemão criou uma categoria relacionada apenas ao sentimento, à subjetividade, à fantasia. Por que não setenta ou sete mil sexos? O Estado, com sua legislação, não deve responder a uma emoção individual ou psíquica; a realidade física dos dois sexos é que deve ser objeto das leis. Não é tarefa do Estado regular ou satisfazer desejos individuais, indo contra os fatos.

Nos últimos anos, muitos países europeus, inclusive a Itália, aprovaram leis para casamentos ou uniões entre pessoas do mesmo sexo, legislação não admitida pelo magistério da Igreja Católica: qual é a sua opinião?

Judith Butler, a promotora do “gênero”, tem observado — contra sua intenção — que a homossexualidade só pode atuar, no ato sexual, imitando o ato heterossexual. Na natureza só existe o modelo chave/fechadura. Duas chaves nada abrem, duas fechaduras não fecham nada. O fenômeno sexual requer dois sexos diferentes; ou, então, necessita de uma imitação artificial da dualidade normal. Minha resposta não argumenta em sentido moral, mas antropológico: a dualidade dos sexos não pode ser anulada. Mesmo na homossexualidade há uma obediência latente à realidade heterossexual. Saber como a legislação responde à homossexualidade é outra questão. Mas a primeira questão, antropológica, é a observação da realidade.

Você falou da necessidade de uma política do sobrenatural: o que isto significa no contexto atual, por exemplo, em países europeus?

A citação é da filósofa francesa Simone Weil (1909-1943). Weil era fascinada pela idéia de que o Estado deve ser governada não pelo direito positivo, mas pela justiça sobrenatural, como Platão escreve no “Politeia” (República). Esse pensamento é correto, mas deve ser limitado. Hoje entendemos “justiça sobrenatural” como lei natural ou direitos humanos: eles não são negociáveis. Mas o Estado também atua, mesmo predominantemente, com o direito positivo, isto é, com as leis que resultaram de compromissos e negociações. Deve-se distinguir entre direitos absolutos, como, por exemplo, o direito à vida (ninguém tem permissão para matar), e direitos de exigência relativa, por exemplo, o direito à educação, trabalho, lazer (direitos que dependem das capacidades do Estado, especialmente da situação financeira). Em relação à Europa, os direitos humanos absolutos ainda são válidos (foram “desenvolvidos” na Europa pelo espírito do Evangelho); o direito de não ser assassinado vale em qualquer circunstância: tanto para o nascituro como para aqueles prestes a morrer. O aborto e a eutanásia são evidentes violações da justiça “sobrenatural” no sentido de Simone Weil. Em relação aos migrantes: também para eles os direitos humanos absolutos são válidos, mas a exigência de moradia, de trabalho, de educação só pode ser satisfeita em relação à capacidade do Estado, ou seja, de maneira relativa.

http://lanuovabq.it/it/il-male-della-chiesa-oggi-si-chiama-neo-modernismo