Nina-Sophie Heereman

A perspectiva é importante tanto para compreender os sinais dos tempos como para pintar uma paisagem. E assim, neste outono de nosso descontentamento católico, fiquei particularmente grato por ouvir uma velha amiga, Nina-Sophie Heereman, que ofereceu uma perspectiva fundamental para a compreensão da atual circunstância católica nos Estados Unidos.

Encontrei pela primeira vez Nina Heereman em Roma, há uns dez anos, quando ela estudava na Universidade de São Tomás, junto com outras mulheres que, na Cidade Eterna, participavam dos estudos católicos avançados do programa de Don Briel. Sua história foi tão marcante, que a contei brevemente no The End and the Beginning (O fim e o começo, segundo volume da minha biografia de João Paulo II), para ilustrar o impacto transformador do falecido papa sobre homens e mulheres de várias origens. E a origem de Nina era certamente intrigante.

Baronesa alemã de nascimento, ela cresceu naquilo que descreveu como um “catolicismo vazio, uma carapaça sem pecado grave e, portanto, sem estado de graça e nenhum encontro com Cristo”. Então, depois de uma poderosa experiência do Cristo eucarístico na Jornada Mundial da Juventude-1997, em Paris, e depois de refletir sobre o próprio discernimento vocacional de João Paulo II, após vê-lo em Roma em 1998, Nina Heereman tornou-se uma discípula missionária comprometida, fazendo votos como leiga consagrada numa dedicação radical à Nova Evangelização.

Depois de receber um dos mais difíceis doutorados do mundo em Sagrada Escritura, ela é agora professora assistente de teologia no Seminario e Universidade de St. Patrick, Califórnia, e foi de lá que ela recentemente me escreveu:

Contra a página sombria de tantas manchetes negativas, que nos assombram por mais de três meses, estou contente em compartilhar a boa notícia de que para mim — uma alemã — mudar para a arquidiocese de São Francisco foi como ter fuçado nos casacos de peles de mamãe e me encontrar na Nárnia católica! Não tenho palavras para descrever minha alegria em servir um bispo verdadeiramente católico, com uma visão tão clara da renovação da Igreja. Honestamente, eu não tinha ideia daquilo em que estava me metendo. Sempre soube que a Igreja americana estava em muito melhor forma do que qualquer Igreja da Europa, mas eu não tinha a menor idéia de que estava muito mais viva. Era como se eu tivesse caido inconscientemente num reduto particularmente católico do país, mas isso não é verdade, pois eu estou no coração do Vale do Silício, que não é famoso por sua devoção à doutrina católica…

Nunca antes — e até agora passei por seis importantes instituições católicas — encontrei uma faculdade que, na sua totalidade, abraça os ensinamentos da Igreja Católica e está totalmente empenhada em ensiná-los. No meu primeiro dia, o reitor do seminário, padre George Schutlze, disse: “Estamos celebrando a Humanae Vitae”; e, em seguida, propôs uma reflexão sobre isso para nosso retiro da faculdade. O arcebispo Cordileone dirigiu-se à faculdade com as mesmas palavras, acrescentando que a conexão entre a dissidência da Humanae Vitae e a atual crise era evidente. Eu era quase incapaz de acreditar em meus próprios ouvidos, que ouviam um pastor da Igreja falar na verdade da Humanae Vitae. “Eu devo estar em Nárnia e Aslan está de volta”, foi o meu único pensamento. Como você sabe, sendo europeia, eu nunca ouvi palavras tão claras, corajosas e proféticas da boca de um bispo local.

Em resumo, agradeço ao Senhor por me haver trazido até aqui. (…) É muito libertador viver minha fé “a céu aberto”. Apesar de tudo o que os jornais dizem, o futuro da Igreja [de rito latino] pertence aos EUA!

Baronesa Doutora Heereman não é ingênua. Multilíngüe, experiente nos caminhos do mundo e ansiosa para ajudar a convertê-lo, uma adulta resgatada do secularismo europeu pela amizade pessoal com Jesus Cristo e, agora, com um dos graus acadêmicos mais distintos do catolicismo, vale muito a pena ouvir Nina. Especialmente quando ela pede aos desanimados pela crise católica de hoje que não temam o futuro, e continuem vivendo a Grande Missão de Mateus 28:19.

Isso não significa desistir de reformas essenciais e dolorosas no catolicismo americano. De modo nenhum. Significa projetar e implementar essas reformas com intenção evangélica.

https://www.firstthings.com/web-exclusives/2018/10/the-catholic-crisis-in-perspective