Suponhamos por exemplo que no Brasil houvesse somente um partido; que esse partido se mantivesse no poder por meio da Polícia, do Exército e da Marinha; e que cada senador ou deputado que criticasse esse partido fosse exilado ou morto; suponhamos que o Presidente estabelecesse uma censura tal como existe na Rússia, e que todo livro que fosse publicado e todo jornal que fosse impresso e todo programa de teatro que fosse distribuído tivesse de glorificar o partido e de trazer o Imprimatur deste; suponhamos, além disso, que o Presidente controlasse toda estação de rádio e toda agência de informações, e não permitisse entrarem no Brasil livros ou revistas estrangeiras que criticassem o seu partido; e suponhamos que qualquer suspeita de falta de simpatia expusesse a pessoa à perda do seu emprego, e o fato de haver pertencido a um partido oposicionista condenasse a pessoa ao exílio; suponhamos que a polícia pudesse punir alguém sem processo; suponhamos que todas as nossas casas, fábricas, fazendas e terras fossem postas nas mãos do partido, para este fazer delas o que bem entendesse, e que as nossas igrejas fossem convertidas em celeiros e museus — suponhamos todas estas coisas como acontecendo aqui no Brasil e teremos uma pintura do que sucedeu na Rússia. E, se eu vos perguntasse o que deveria acontecer-vos antes de renderdes a vossa atual liberdade e independência — vós diríeis que primeiramente teríeis de ser prostrados inconscientes. Foi isso justamente o que o Comunismo fez na Rússia com a sua propaganda — prostrou-os na inconsciência.

Que é o ópio? É uma droga que amortece as potências intelectuais do homem, mas deixa continuarem as suas funções animais e vegetativas. Um homem sob a influência dele não pode pensar, mas pode digerir; não pode querer, mas ainda pode respirar. Por outras palavras, é como um animal e não como um homem.

Ora, qual dos dois merece ser chamado ópio — a religião ou o Comunismo? A religião pede intelecto; começa pedindo ao homem usar a sua razão para descobrir o grande Legislador por trás da lei, o grande Pensador por trás de todo pensamento, a Beleza Perfeita por trás de toda poesia. Feito isto, pede à razão estabelecer critérios científicos para julgar a possibilidade de haver-se Deus alguma vez revelado a nós de qualquer outro modo que não pela sua atividade criadora; e, uma vez estabelecidos estes critérios, aplica-os Àquele que apareceu na terra e pretendeu ser o Criador do mundo. Só depois que esse Pretendente provou a sua Divindade por coisas divinas, racionalmente reconhecíveis, é que o intelecto opera a sua submissão à verdade d’Ele. Depois, pegando do telescópio da fé, que não destrói a razão como o telescópio material não destrói o olho, ele entra em comunicação com outros mundos com que a razão nunca sonhou. Isso é a religião — e uma religião assim pede que o homem conserve bem viva a sua razão.

Porém o Comunismo adormece a razão; diz ao homem que não procure uma causa para este mundo, que não se admire de que a gente tenha medo de morrer, que não pergunte por que é que uma ação má enche de remorso a consciência, e uma ação boa a enche de paz. Diz ao homem que tudo o de que ele precisa para ser um cidadão no Estado Comunista é ter um estômago e duas mãos; por outras palavras, é ser um animal econômico a amontoar riqueza para o Estado, e depois morrer, como uma besta, mesmo sem ter um Zinoviev para o mumificar. Todo regime que faz isto a seres humanos está-lhes negando aquilo que os diferencia dos animais, e está criando uma nova escravidão em que a mente e a vontade são atadas com grilhões — escravidão mil vezes mais amarga do que a escravidão do corpo. Os governos do mundo estão gradualmente fechando o cerco àqueles que traficam em narcóticos e drogas; e muito breve os povos inteligentes do mundo atentarão sobre o mal feito pelo ópio que vem da Rússia e da propaganda comunista. Esse ópio já arruinou milhões de pessoas na Rússia, mas não se deve permitir que arruíne o mundo.

(Em: Bispo Fulton J. Scheen. Comunismo: ópio do povo. Petrópolis, Vozes, 1952).