O Comunismo é o ópio do povo porque adormece os pobres prometendo-lhes algo que nunca lhes pode dar, ou seja um paraíso terrestre. Mudando apenas uma palavra numa sentença de Lenine: “O Comunismo ensina aqueles que labutam toda a sua vida em pobreza a serem resignados e pacientes neste mundo, e consola-os pelo pensamento de um paraíso terrestre”. Singular espécie de paraíso esse, que é inaugurado pelo morticínio, pelo exílio e pelo confisco; estranha espécie de paraíso esse, que espera estabelecer a fraternidade pregando a luta de classes, e estabelecer a paz praticando a violência. Estranha espécie de paraíso esse que tem de recorrer ao temor e à tirania para impedir que alguém “escape” dele. Um anjo teve de conduzir Adão e Eva para fora do Éden; mas parece que tantos foram os que tentaram escapar do paraíso de Stalin, que este publicou um decreto no Izvestia de 9 de Junho de 1934, para o efeito de que, se alguém tentasse fugir, a sua família inteira seria mandada para o exílio e para o trabalho forçado por cinco anos, mesmo se não soubesse nada da intenção dele; também seria privada dos direitos eleitorais, o que significava perda dos cartões de alimentação. Estranho paraíso esse em que, no meio de uma fome, Kalinin, o Presidente da URSS, disse aos camponeses que as colheitas eram pequenas porque eles comiam pão demais (Izvestia, 10 de Janeiro de 1936). O Comunismo é realmente o ópio do povo quando, de um lado, permite que pelo menos cinco milhões de pessoas morram de fome na Ucrânia e no norte do Cáucaso pelo fato de o Estado exigir dos operários duas ou três vezes a safra dos anos anteriores; e, de outro lado, anuncia no seu jornal, o Pravda (28 de Julho de 1933): “A União Soviética é o único país no mundo que não conhece a pobreza”. Não admira que o povo russo diga que não há Verdade (Pravda) nas Novidades (Izvestia) e não há Novidades na Verdade.

O Comunismo é realmente o ópio dos pobres quando lhes diz que aboliu completamente o desemprego na Rússia, embora ocultando o trágico fato de que qualquer país estaria sem desemprego se houvesse nele conscrição de trabalho em massa. Lá, o homem desempregado tem de aceitar trabalho onde quer que este lhe seja oferecido, mesmo quando a mil milhas de distância, porque não há senão o Estado que emprega; e, se o operário recusar o emprego, não poderá ir para nenhum outro lugar. O Brasil também poderia abolir o desemprego se o Presidente assumisse poderes ditatoriais e declarasse que cada cidadão tinha de fazer para o Estado um trabalho prescrito, em troca de comida e de roupa. Chamberlin, que passou doze anos na Rússia, declarou que as famílias socorridas na América estão em melhores condições do que muitos dos lavradores russos. Knickerbocker, jornalista americano, comparando o custo de vida na URSS e nos Estados Unidos, avaliou o salário diário de um kolkhozian (lavrador numa fazenda coletivista) em oito centavos americanos. Para que essa estimativa não seja considerada falsa, seria bom reportar-se ao Jornal de Instrução Comunista (publicação comunista, 18 de Novembro de 1934), onde é declarado que um lavrador que conserva consigo uma vaca deve dar ao Estado, por esse privilégio, 136 quartilhos de leite e 50 libras de carne. O salário médio de um trabalhador na Rússia é de 225 rublos por mês. Uma indicação do poder de compra desse salário é proporcionada pelo fato de ser preciso o salário de três semanas para comprar um par de sapatos (Sovietskaia Torgovlia, Ns. 99 e 110, 1936). Há algumas cidades na Rússia onde é quase impossível comprar umas calças, p. e., Kharkov, Gorki, Rostov (Izvestia, 10 de Março de 1936). O diário oficial de Moscou diz: “Nenhum armazém em Moscou pode dizer quando será possível fornecer mercadoria” (Izvestia, 28 de Junho de 1936). Mikoyan, o Comissário da Indústria de Alimentação, disse: “Na República Soviética estamos acostumados a ter somente mercadorias de má qualidade, e sempre em quantidades insuficientes” (Izvestia, 27 de Dezembro de 1935). Soulimov, Presidente dos Comissários do Povo, disse: “Tudo está a um nível muito baixo, exceto os preços, que são exorbitantes” (Pravda, 31 de Julho de 1936).

E assim a citação de fatos poderia prosseguir indefinidamente. Todos eles contam a mesma história, a saber: o Comunismo é o ópio do povo porque explora os pobres prometendo-lhes o impossível, mesmo nesta vida. A Religião, é verdade, faz crer numa vida futura; mas nunca pediu aos homens que, na esperança de uma sorte futura, se resignassem a condições tais como existem na Rússia. Quem quer que leia o autorizado livro do Dr. Ewald Ammende, A Vida Humana na Rússia (Alien and Unwin, 1936, Londres), verá como os russos se acham mal sob o domínio dos comunistas. As fotografias das vítimas da fome por si só contam uma história, independentemente do texto. Ali não somente sofre a vida humana, mas sofre até mesmo a vida animal.

(Em: Bispo Fulton J. Scheen. Comunismo: ópio do povo. Petrópolis, Vozes, 1952).