O Comunismo é o ópio do povo porque mascara as injustiças da exploração comunista; ou, trocando apenas uma palavra numa sentença de Lenine: “O Comunismo é uma espécie de intoxicação espiritual que fornece uma justificação para a exploração”. Ele engana o proletariado dentro da crença de que eles devem sofrer tudo para estabelecer a revolução mundial, ao passo que o Partido em controle se ceva em poder, privilégio e luxo.

Para compreender esta afirmação devemos considerar o fato de que há menos de três milhões de membros do Partido Comunista na Rússia, e de que, pelo terror e pela propaganda, esses poucos milhões governam cento e sessenta milhões. A máscara favorita do Partido para a exploração é o seu ódio ao capitalismo, capitalismo que ele diz ter reduzido os trabalhadores a pó.

Na realidade, o Comunismo não é inimigo do capitalismo. Antes, o Comunismo tem ignorado certos aspectos benéficos do capitalismo, e tem elevado a uma filosofia da vida todas as suas formas perversas e corrompidas. O capitalismo disse que o fim econômico é o principal fim do homem; o Comunismo diz que o fim econômico é o único fim do homem. O capitalismo muitas vezes pagou ao operário um salário tão baixo, que este não podia possuir casa própria; o Comunismo paga um salário ainda mais baixo, e nega ao operário o direito de possuir sua casa. O capitalismo desenvolveu o egoísmo individual; o Comunismo gera o egoísmo coletivo. O capitalismo concentrou a riqueza nas mãos de alguns; o Comunismo concentra a riqueza nas mãos do Partido. O capitalismo até certo ponto controlou o contrato de salário, controlando a maioria dos empregos; o Comunismo elimina o contrato de salário, controlando todos os empregos; nele há só um patrão, o Partido, e, se recusardes trabalhar para esse patrão, perdereis o direito de comer — pois na Rússia não há caridade. O Comunismo é o capitalismo enlouquecido, e um comunista é um capitalista que tem ganância no coração mas não tem dinheiro no bolso.

Ponha-se uma vez a máscara do Comunismo, e a exploração dos trabalhadores é fácil; se o Plano Qüinqüenal falhar, lance-se a culpa sobre os operários nos campos, por haverem recusado cooperar com os ideais do Partido. Que pensaríamos nós se o Ministério da Agricultura fuzilasse trinta e cinco dos seus funcionários, sem processo, por causa de um fracasso de colheita, ou se o Governo fuzilasse quarenta e oito dos seus especialistas, sem processo, por haver a produção declinado?

Todavia, foi justamente isto que o Partido Comunista fez em 1930 e 1933.

Que sucederia no nosso País se alguma grande organização produtora afixasse amanhã de manhã no seu quadro de avisos o Código 47 da União Soviética, para o fim de que todo empregado que faltasse ao trabalho por um dia perdesse o emprego, e ele e sua família fossem privados das suas posses (Izvestia, 21 de Novembro de 1932)? Não chamaríamos de explorador o nosso Governo se, na sua ânsia de colher uma grande safra, mesmo na área seca, publicasse uma nota proibindo os agricultores de comerem as próprias espigas de milho que eles haviam plantado e cultivado?

Contudo, foi isto o que o Partido Comunista fez aos famintos lavradores das fazendas coletivas na Rússia, rezando a nota: “O culpado deve ser fuzilado e seus bens confiscados” (Izvestia, 8 de Agosto de 1932).

Suponde que, por causa do decréscimo nas colheitas, o nosso Departamento de Agricultura ordenasse às crianças “guardarem os campos mesmo durante a noite, desde que tenham oito anos de idade” (Moldaia Guardia, 17 de Agosto de 1935); não seria isto uma máscara para encobrir a mais diabólica espécie de exploração?

Suponde, ademais, que o Presidente confiscasse toda propriedade privada, e depois, em nome de um Brasil maior, fizesse o lavrador pagar, por uma broa ou por um pão, dezenove vezes mais do que o governo deu ao lavrador pelo seu trigo (Izvestia, 26 de Setembro de 1935)! Contudo, esta é a situação na Rússia, país sem intermediários, porém com centenas de funcionários desonestos.

Certamente, se o termo exploração pertence a alguém, deve ser aplicado àqueles que o usam mais para encobrir os seus próprios pecados, ou seja, àquele país onde o Comunismo ilude o explorado trabalhador mantendo baixos os salários dos funcionários públicos e altos os seus privilégios — tais como cartões especiais, casas de férias, carros particulares, transporte especial e casas de luxo; — onde o operário é tão explorado para efeito de comércio exterior e de propaganda, que em 1934 o Estado produziu para cada cidadão, no seu clima frio, somente 2/5 de uma jarda de fazenda de lã e 11/10 de jardas de fazenda de linho (Izvestia, 22 de Abril de 1935), e para cada 4,5 pessoas somente um par de sapatos.

A exploração torna-se nada menos que criminosa quando diz aos trabalhadores que há tanto trigo que eles não precisam mais de racionamento de pão; mas, de fato, fecha os armazéns das cooperativas onde eles podem comprá-lo a preço mais ou menos razoável, e força-os a comprar em armazéns comerciais onde se sabe que o preço é muitas vezes mais alto. Em virtude desta exploração, o Partido Comunista alardeou haver aumentado a sua renda de vinte e quatro bilhões de rublos para 1935 (Za Ind., 9 de Fevereiro de 1935). Não é, pois, de admirar que uma das anedotas mais populares na Rússia seja a de um explorado operário pendurado precariamente a um coletivo superlotado, e que, quando viu Stalin e seus ajudantes passarem perto num Rolls-Royce, observou sarcasticamente: “Eu sou o patrão. Esses são os meus caixeiros”.

(Em: Bispo Fulton J. Scheen. Comunismo: ópio do povo. Petrópolis, Vozes, 1952).