Dom Bosco, santo e homem de ação

Consideremos o argumento dos comunistas de que a religião torna o homem passivo.

a) Provavelmente, não haverá maior perversão da verdade do que esta afirmação do Comunismo. O contrário é que é verdade. A religião é essencialmente dinâmica. A Igreja, é verdade, prega-nos a resignação à nossa própria sorte, mas isto não significa passividade. Antes, é uma resignação orientada para a ação. Resignação significa aceitação da nossa sorte enquanto se aguardam melhores coisas que devem ser alcançadas não por meio de revolução, mas mediante atuação inteligente. Não é esta a atitude de uma mãe para com seu filhinho? Ela se resigna à infância deste, mas isto não quer dizer que ela se recuse a criá-lo e educá-lo até que ele entre na adolescência e na maturidade. O lavrador que semeia a sua semente resigna-se ao fato de ter ela de crescer mediante um processo lento, misterioso, pois nem em pensamento pode ele aumentar um côvado à sua própria estatura. Porém semelhante resignação não significa que ele não deva cultivar a sua seara, ou não deva extirpar o joio ou receber com agrado a ação do sol e da chuva. De igual modo, quando a Igreja fala de resignação cristã, entende dizer que devemos trabalhar efetivamente pela melhoria social como o lavrador o faz com sua semente, isto é, que nos devemos capacitar de que toda reforma deve proceder de uma verdadeira consideração da natureza da coisa a ser reformada. Ela repudia o sistema comunista, por saber que não se pode criar um paraíso terrestre econômico mediante uma revolução, tão pouco como se pode fazer uma criança crescer acendendo-lhe uma bomba debaixo do berço.

b) Por que é que os comunistas não podem ver esse fato óbvio de que, se a religião acentuasse a passividade do homem, então nunca admitiria a terrível realidade do pecado? O pecado não significa que o homem é consciente, deliberado e ativo, e que a criatura pode levantar o seu Non serviam contra o Criador? O próprio símbolo do Cristianismo, que é a Cruz, atesta melhor do que qualquer outra coisa a atividade do homem na religião. Diante dessa Cruz o homem não pode ficar indiferente; não pode ser passivo; ou tem de pregar nela o Salvador, ou tem de subir a ela para ser crucificado com Ele. Se a religião é passiva, por que então os comunistas hão de ser tão ativos para destruí-la? Acaso organizamos exércitos para matarmos aquilo que acreditamos serem cães mortos? Se a religião é passiva, por que então incentivava o martírio entre os católicos na Espanha? Realmente, se a religião é um ópio, é uma estranha espécie de ópio que faz mártires.

c) Além disto, se for verdade que o Cristianismo lança toda a responsabilidade sobre Deus, então como explicarmos a sua filosofia do progresso técnico? De acordo com a Igreja, todo progresso na ciência e na tecnologia é devido à livre atividade do homem. Por que é que ela condena o quietismo, senão por ser ele bastante néscio para esperar que Deus diga por nós as nossas preces, como néscio é esperar que Deus venha em pessoa cultivar as nossas searas? Deus dá ao homem a graça para elevá-lo e sustentá-lo num estado sobrenatural; mas a invenção das suas máquinas, o incremento da sua agricultura, a melhoria da sua condição econômica deve vir dele mesmo, como causa secundária, ainda mesmo quando ele reconheça a Deus como causa primária. Um dos princípios mais básicos da filosofia católica é que o controle sobre a natureza, que é o requisito da ciência, só é possível a um espírito superior à natureza. Quer isto dizer que todo progresso científico, todo progresso técnico e adiantamento cultural procede do homem, cuja liberdade é conseqüência da espiritualidade da sua alma. Por que é que as pedras não podem conhecer? Por que é que a erva não pode pensar e refletir no seu crescimento? Por que é que o ferro, nas entranhas da terra, não pode clamar pela sua libertação? É porque essas coisas não têm um espírito desligado da sua materialidade; é porque cada uma delas está tão imersa na matéria, que não pode voltar-se sobre si mesma para jazer alguma coisa consigo mesma. Mas um homem pode justamente fazer isso; pode pensar sobre si mesmo, entristecer-se com os seus fracassos e alegrar-se com os seus êxitos, porque tem uma alma que transcende à matéria. É o espírito que o torna livre; e, pelo fato de ser livre da matéria, ele pode transformar a matéria: converter árvores em estátuas, pedras em edifícios, carvão em calor, e a insignificância de um carbono no brilho de um diamante. Porém o Comunismo, partindo do princípio de que só há matéria, é, por isso, incapaz de explicar o progresso científico, ou por que razão o homem pode edificar mil cidades diferentes, e uma formiga tem de construir sempre um formigueiro. Negar o espírito é negar a liberdade, negar a liberdade é arruinar a atividade criadora do homem — e tal é a essência do Comunismo. Daí achar-se ele na contingência de deixar inexplicada a própria coisa que ele exalta, ou seja o progresso técnico. Ele nos diz que a civilização muda com as suas ferramentas, mas não nos diz por que razão o homem faz ferramentas e não as fazem os esquilos. De fato, se há filosofia que torne o homem passivo, é a filosofia que diz ao homem que ele é apenas material; porquanto podeis imaginar algo mais passivo do que uma ferramenta?

d) Finalmente, a religião é dinâmica porque se interessa pelo futuro. O Comunismo assevera que os pensamentos acerca do futuro tornam o homem passivo. Se isto é verdade, por que então eles insistem tanto no Plano Qüinqüenal? É o futuro ou é o presente que faz a vaca ficar satisfeita com o seu pasto? A verdade é esta: quanto mais ideal é o futuro, tanto mais forte é o incentivo à ação. O simples fato de eu ter que tomar uma refeição amanhã não reclama grande ação da minha parte hoje. Mas o fato de eu querer ser médico ou advogado em dez anos dá-me energias para dez anos de estudo. Ora, o futuro que a religião ostenta diante do homem não é somente uma consciência tranqüila todos os dias da sua vida, mas também uma eterna recompensa na outra. Destarte o cristão é convidado a ser um homem de ação tal, que, se lhe forem dados dez talentos, deve ele ganhar mais outros dez para conquistar o reino dos céus, e, se lhe forem dados cinco, deve ele ganhar mais cinco; porém ai dele se for passivo e enterrar o seu talento dentro de um guardanapo — então, até mesmo aquilo que ele tem ser-lhe-á tirado. A religião é tão ativa que baseia o seu incentivo numa intérmina vista de perfeição. Ao cristão é dito que ele deve não somente correr a corrida ou combater o bom combate, porém ganhar; e que a coroa só virá àqueles que são bastante enérgicos para tomar uma cruz, ser benignos para com os que blasfemam, bendizer os que os perseguem e dizer “perdoai-lhes” até mesmo àqueles que nos pregam numa cruz. Isto é ação, e o comunista que disser que não é deve experimentar viver por um dia a vida ativa de um santo. Então descobrirá que, quando se rouba a um homem o seu ideal futuro, rouba-se a esse homem a sua força motriz para agir. Porquanto, se esta vida é tudo, então que diferença faz, para o regime comunista, que eu viva mal ou bem? Se esta vida presente é um mero sonho entre dois vácuos, então por que construir um túmulo para Lenine e não o construir para um fiel cavalo velho numa fazenda coletiva? Se ambos têm o mesmo fim, e se ambos são materiais, então por que um deve ser honrado de preferência ao outro? Certamente, no fundo dos seus corações os comunistas devem perguntar-se que lhes aproveita encherem o mundo de tratores e perderem suas almas imortais. E, do momento em que eles fizerem a si esta pergunta, começarão a ser ativos como os cristãos, planejando não somente como hão de salvar suas colheitas, mas também como hão de salvar as suas almas.

(Em: Bispo Fulton J. Scheen. Comunismo: ópio do povo. Petrópolis, Vozes, 1952).