São Vicente de Paulo

A Igreja nunca foi unilateral a ponto de ensinar aos pobres somente os seus deveres. Os comunistas não podem apontar uma simples linha, em toda a história da Igreja, na qual ela tenha pedido aos pobres se submeterem à exploração. Pelo contrário, a Igreja ensina que o Estado tem deveres para com os pobres. Leão XIII diz: “Assim como o Estado pode tornar-se útil às outras classes, assim também pode melhorar muitíssimo a sorte da classe operária; e quanto mais se multiplicarem as vantagens desta ação de ordem geral, tanto menos necessidade haverá de recorrer a outros expedientes para remediar a condição dos trabalhadores” (Rerum Novarum n. 48). Não é apenas uma questão de caridade para com o pobre; é, antes, uma questão de verdadeira justiça, e uma questão que reclama aplicação estrita, se não por outra razão, ao menos pelo fato de serem os pobres a maioria.

 “Os pobres, com o mesmo título que os ricos, são, por direito natural, cidadãos; isto é, do número das partes vivas de que se compõe, por intermédio das famílias, o corpo inteiro da nação, para não dizer que em todas as cidades são o grande número. Como, pois, seria desrazoável prover a uma classe de cidadãos e negligenciar outra, torna-se evidente que a autoridade pública deve também tomar as medidas necessárias para salvaguardar a salvação e os interesses da classe operária. Se ela faltar a isto, viola a estrita justiça que quer que a cada um seja dado o que lhe é devido. A esse respeito São Tomás diz muito sabiamente: “Assim como a parte e o todo são em certo modo uma mesma coisa, assim o que pertence ao todo pertence de alguma sorte a cada parte” (Suma teológica II-II, q. 61, a. 1, 2). É por isso que, entre os graves e numerosos deveres dos governantes que querem prover, como convém, ao bem público, o principal dever, que domina todos os outros, consiste em cuidar igualmente de todas as classes de cidadãos, observando rigorosamente as leis da justiça, chamada distributiva” (Rerum Novarum, n. 49).

 Se houver possibilidade de escolha, devem os pobres ser favorecidos de preferência aos ricos: “Na proteção dos direitos particulares, o Estado deve preocupar-se, de maneira especial, dos fracos e dos indigentes. A classe rica faz das suas riquezas uma espécie de baluarte e tem menos necessidade da tutela pública. A classe indigente, ao contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a proteção do Estado. Que o Estado se faça, pois, sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em geral pertencem à classe pobre” (Rerum Novarum, n. 54).

É precisamente contra a exploração dos pobres que o Pontífice protesta, e em particular contra essa exploração que o Comunismo pratica, a saber, o trato dos homens como outros tantos estômagos a fazerem dinheiro para o Estado.

“No que diz respeito aos bens naturais e exteriores, primeiro que tudo é um dever da autoridade pública subtrair o pobre operário à desumanidade de ávidos especuladores, que abusam, sem nenhuma discrição, das pessoas como das coisas” (Rerum Novarum, n. 59).

Nem é verdade, como diz Lenine, que a Igreja não faz outra coisa senão ensinar “aqueles que labutam na pobreza a vida toda a serem resignados e pacientes neste mundo, e consolá-los com uma recompensa no céu”. A verdade é o contrário: “Nem se pense que a Igreja se deixa absorver de tal modo pelo cuidado das almas, que põe de parte o que se relaciona com a vida terrestre e mortal. Pelo que em particular diz respeito à classe dos trabalhadores, ela faz todos os esforços para os arrancar à miséria e procurar-lhes uma sorte melhor. E, certamente, não é um fraco apoio que ela dá a esta obra só pelo fato de trabalhar, por palavras e atos, para reconduzir os homens à virtude. Os costumes cristãos, desde que entram em ação, exercem naturalmente sobre a prosperidade temporal a sua parte de benéfica influência; porque eles atraem o favor de Deus, princípio e fonte de todo o bem; comprimem o desejo excessivo das riquezas e a sede dos prazeres, esses dois flagelos que freqüentes vezes lançam a amargura e o desgosto no seio mesmo da opulência (1 Timóteo 6, 10); contentam-se enfim com uma vida e alimentação frugal, e suprem pela economia a modicidade do rendimento, longe desses vícios que consomem não só as pequenas, mas as grandes fortunas, e dissipam os maiores patrimônios” (Rerum Novarum, n. 42).

Para que não fosse deixado vago o interesse pela prosperidade terrena do homem, Pio XI adita à concreta sugestão de Leão XIII uma recomendação que é o contrário do Comunismo, como seja — ajudar os trabalhadores a possuírem a propriedade. Não arrancá-la e tornar milionários os “leaders” do Partido Comunista; porém dá-la aos pobres como posse deles: “É, pois, necessário empregar energicamente todos os esforços, para que, ao menos de futuro, as riquezas granjeadas se acumulem em justa proporção nas mãos dos ricos, e, com suficiente largueza, se distribuam pelos operários; não para que estes se dêem ao ócio, — já que o homem nasceu para trabalhar como a ave para voar, — mas para que, vivendo com parcimônia, aumentem os seus haveres, aumentados e bem administrados provejam aos encargos da família; e, livres assim de uma condição precária e incerta qual é a dos proletários, não só possam fazer frente a todas as eventualidades durante a vida, mas deixem ainda por morte alguma coisa aos que lhes sobrevivem” (Quadragesimo Anno, n. 61).

(Em: Bispo Fulton J. Scheen. Comunismo: ópio do povo. Petrópolis, Vozes, 1952).