Dante Gabriel Rossetti, Paolo e Francesca (1855)

Se a liberação sexual é boa estratégia para deixar mais dependente do Estado o indivíduo entorpecido, tem contado sempre com a colaboração da literatura, e isso desde o século XVIII, a época de Rousseau e outros liberadores. Um século mais tarde, com o romance naturalista, muito mais zoológico do que antropológico — era quase o Kama sutra do ocidente —, o público literário já podia se deliciar abertamente com longas cenas de sexo explícito, que tinham pouco a ver com a neutralidade da ciência natural e funcionavam mais como guias-práticos de masturbação, quando não eram pornografia pura e simples (é o caso do grotesco romance O bom crioulo, de Adolfo Caminha, explorando o homossexualismo entre marinheiros).

Essa literatura pró-sexual, que aparece para valer com o romance naturalista, conseguiu criar um público cativo para a moderna pornografia. Funcionava como aquela sereia maviosa do início Canto XIX do Purgatório dantesco, cuja aparência sedutora (que encantava os marinheiros no meio do mar, “che ‘marinari in mezzo mar dismago”), no fundo encobria uma bruxa vesga, gaga, coxa e maneta, de cujo ventre emanava um cheiro fétido e nauseante.

Interessante estudo seria o de verificar como esse caminho barbarizante para o inferno já começa a ser aplainado pela própria literatura, desde o século XVIII. Há uma espécie de literatura engajada numa anti-ascese libertária, a reboque dos pecados capitais. Essa literatura militante tem em O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, um exemplo perfeito, cuja estimulação quase ritualística do sexo revivia certas experiências gnósticas da Antiguidade (Buñuel recriou uma dessas orgias místicas em cena d’A via Láctea, filme de 1969, prato cheio para aquele final de década).

Ao lado do ascetismo cristão, que conduz ao mundo superior, há uma ascese que leva ao mundo inferior, na distinção bem feita de Mário Ferreira dos Santos, em A invasão vertical dos bárbaros, de 1967 (reposta em circulação pela Editora É, em 2012).