Valem por um livro de quinhentas páginas o simples título e subtítulo do último livro do cardeal africano Robert Sarah, A força do silêncio (contra a ditadura do ruído). Ensina o cardeal que, sem o silêncio — sem a permanência no silêncio —, ninguém poderia falar com Deus. Não há oração sem silêncio. O próprio Jesus, Deus encarnado, tinha necessidade de recolhimentos silenciosos para unir-se ao Pai, e era da fonte do silêncio orante que brotava a água viva de sua Palavra.

Nossos templos, porém, parece que já não prezam o silêncio como antes. Nem os templos, nem outros lugares em que a ausência de ruído era o pano de fundo obrigatório. Por exemplo, nas escolas. Se o silêncio é fundamental para o encontro vivo com Deus, não o será menos para o trabalho intelectual. Os estudos superiores necessitam do silêncio como a planta precisa da luz do sol.

Por isso, é lamentável ver como as escolas superiores têm se transformado em verdadeiros templos do barulho e da agitação. O barulho é o fundo musical das guerras. Em breve, não ficará pedra sobre pedra no mundo acadêmico; e é duro constatá-lo, quando sabemos que uma de suas pedras angulares é, sem dúvida, o silêncio.

Lembro-me, quando comecei a trabalhar na universidade pública, no final dos anos oitenta, do efeito que provocava em mim um pequeno luminoso, já sem lâmpada, que havia no alto do corredor das salas de aula — pedindo justamente isto: Silêncio. Gostava de vê-lo lá no alto, como sinal de outra época e outra maneira de compreender a relação com os livros e o conhecimento.

Aquele pedido de “silêncio” vinha de longe, de muito longe, da própria aurora do pensamento humano. Concretamente, no caso da minha escola, vinha pelo menos dos anos cinquenta, dos fundadores e primeiros professores da faculdade (homens de estudo como Almeida Prado, Soares Amora, José van der Besselaar, Rolando Morel Pinto, Jorge de Sena, José Carlos Garbuglio, Ênio Fonda, Júlio Garcia Morejón, Antônio Cândido), os quais, independente do que pensavam sobre política, sociedade ou Deus, ainda acreditavam no aspecto mais ou menos monástico do trabalho intelectual, apesar da influência negativa que alguns deles, como Antonio Candido, exerceriam sobre os professores seguintes, mais preocupados com militância política do que com o mundo do conhecimento.

Todos, porém, representam uma universidade que não há mais; e que só sobreviveu um pouco mais, graças a alguns de seus assistentes, por eles instruídos e orientados. Mas esses, também, há muito que já não estão mais na docência: vestiram o pijama e os chinelos da aposentadoria, deixando a universidade entregue à primeira geração formada nos ginásios e colégios do regime militar, de cujos currículos foram expulsos o latim, o grego, o francês, o alemão, o canto orfeônico, decadência que a “nova república” posterior (PMDB, PSDB, PT) cuidou de fazer chegar mais rápido ao fundo do poço.

O barulho é o fundo musical das guerras; é a música-ambiente desses nossos belicosos tempos modernos. Se o pequeno luminoso pedindo silêncio já não fazia mais sentido naquela última década do século XX, e era uma simples peça de museu esquecida em seu lugar de origem, hoje deve provocar observações no mínimo sarcásticas aos poucos alunos que ainda o enxergam, no vasto corredor do nosso prédio de Letras.