Cenas da Paixão de Cristo, por Hans Memling (1430-1494)

O primeiro mestre ainda “vivo” da história da música ocidental é Josquin DES PRÈS. Josquin DES PRÈS (1450–1521) é, na música, o representante do Quattrocento. A historiografia romântica, confundindo as diversas fases da Renascença, gostava de compará-lo a Rafaelo, a Andréa del Sarto, a Correggio, comparações que se encontram em escritos musicológicos da primeira metade do século XIX, em Fétis e em Ambros.

Mas Josquin não tem nada de italiano; sua Renascença é nórdica, a das cidades de Flandres, Gent, Bruges; região de tão intensa vida estética como a Florença e a Veneza do Quattrocento, mas inspirada por mais profunda religiosidade. A propósito da Ave Maria de Josquin, a quatro vozes, não nos ocorrem Rafaelo nem Correggio, mas as virgens humildes e secretamente extáticas de Memling; o De Profundis e o sombrio e incomparavelmente poderoso Grande Miserere nos lembram os anjos pretos que, nos quadros de Roger van der Weyden, voam como grandes aves da morte em torno da cruz erigida no Gólgota.

No entanto, Josquin esteve na Itália; mas não para aprender e, sim, para ensinar. Ali, assim como na França, foi chamado de Princeps musicae; sua posição, no fim do século XV, parece ter sido a de Beethoven em nosso tempo. Mas comparações dessas nunca se referem ao estilo, nem sequer ao valor. Pois este último não nos é completamente acessível. Essa música, com suas requintadíssimas artes contrapontísticas, com seus artifícios audaciosos na inversão e imitação das vozes por outras vozes, com as suas complexidades que não podem ser ouvidas, mas que só se percebem na leitura, essa música nos é permanentemente estranha.

Já se aventuraram hipóteses: de que parte dessas obras não estaria destinada à execução, mas ao ensino; ou então, de que só poderiam ser executadas com acompanhamento do órgão, porque sem isso os coros ficariam desorientados, caindo na confusão.

Podemos admirar infinitamente obras como a complicadíssima missa L’Homme armé, o salmo In exitu Israel, os grandiosos motetes Praeter rerum seriem (seis vozes), Hic in sidereo e Qui habitat in adjutório (24 vozes), que parecem dizer de um outro mundo, inefável. Mas para a nossa vida musical, na igreja ou na sala de concertos, só poucas obras de Josquin ainda têm atualidade: aqueles De Profundis e Ave Maria; a missa Pange lingua, provavelmente a obra-prima de Josquin, de beleza angélica; a gloriosa missa Une musique de Biscaye já ressuscitada em disco (Renaissance Chorus de Nova Iorque); e o sereno Stabat Mater (cinco vozes), que está definitivamente reincorporado ao repertório das grandes associações corais.

São obras de complexidade algo menor, que os coros modernos podem executar em puro estilo a capela, isto é, sem qualquer apoio de vozes humanas por instrumentos; e que revela melhor o elemento novo da arte de Josquin: sua música comunica emoção religiosa, talvez já um pouco subjetiva.

Mas não exageremos. O compositor não pode nem pretende exprimir musicalmente o conteúdo todo das palavras litúrgicas; pois as muitas vozes cantam, ao mesmo tempo, textos diferentes, dos quais um é quase sempre profano; e todas as palavras ficam incompreensíveis, como devoradas pelas colossais ondas sonoras. Na verdade, as palavras não significam nada para o compositor; são apenas o fundamento da arquitetura, construída com vozes humanas. É arte abstrata.

(Otto  Maria Carpeaux, Uma nova história da música).

Josquin Des Près: Missa Pange lingua (Tallis Scholars)