Às dificuldades do julgamento e da condenação de um herético, de um excomungado ou de um infiel acrescentam-se as formidáveis sombras das suas disposições no momento tremendo da morte. O destino de cada homem só é determinado no seu último instante, e só Deus o conhece.

— Está condenado Lutero? — perguntou alguém a S. Francisco de Sales; e o virtuoso bispo de Genebra respondeu que o não sabia.

Deus, que à sua Igreja, pelo órgão do Sumo Pontífice, atribuiu o direito de proferir infalíveis sentenças sobre a canonização dos Santos, não lhe concedeu a permissão de pronunciar-se no tocante à condenação dos que mal viveram.

O padre Gratry, na sua Filosofia do Credo, refere a este respeito um fato característico. Certo réu de morte sobe ao cadafalso entre exortações de piedoso confessor, mas obstinado lhe resiste aos conselhos e às súplicas. O condenado repele o santo homem e redobra de blasfêmias.

— Cristãos — exclama então o padre —, vinde ver como acaba um réprobo!

Quarenta anos depois, trata-se de canonizar o sacerdote; heróicas eram as suas virtudes, e incontestáveis alguns milagres que operara: mas a essas provas opõem-se as imprudentes palavras que ele tinha proferido sobre o patíbulo do impenitente, e tanto bastou para que a canonização se não efetuasse. A Igreja, severa neste ponto, como em todos os que entendem com matéria dogmática, recusou o culto de dulia ao servidor de Deus, porque indiscreto se antecipara nos mistérios da Suprema Misericórdia.

(Em: Carlos de Laet, Indiferentismo religioso. Conferência feita em 24 de Outubro de 1901 no Círculo Católico da Mocidade, Rio de Janeiro).