Bispo americano Dom Fulton Sheen

A Argumentação Comunista. Procurando através da sua literatura de caráter oficial, encontramos que os comunistas invocam três razões em abono da sua afirmação de que a religião é o ópio do povo:

1) A religião ensina aos ricos os seus direitos, e portanto ajuda os ricos na sua exploração dos pobres;

2) A religião ensina aos pobres os seus deveres para com os ricos, e destarte ajuda a exploração dos pobres pelos ricos;

3) A religião, pela sua própria natureza, é passiva, e mata toda atividade por meio da qual o homem possa melhorar a sua condição econômica.

“Religião, patrocinando a causa dos ricos”. Lenine desenvolve o primeiro argumento, de que a religião é o ópio do povo porque proclama os direitos dos capitalistas e dos ricos. Desenvolve-o assim: “A religião é uma espécie de tóxico espiritual, no qual os escravos do capital afogam a sua humanidade e embotam o seu desejo de uma existência humana decente” (Novoya Zhizn N.º 28). Acrescenta, mesmo, que a religião incentiva a caridade como uma espécie de escusa para a injustiça. “Porque aos que vivem do trabalho dos outros, a religião ensina a serem caridosos, arranjando assim uma justificação para a exploração, e como se fosse um bilhete barato para o céu” (íbid.). Houharin, na obra oficial do Comunismo intitulada O ABC do Comunismo, desenvolve a mesma idéia: “A religião foi no passado, e ainda é hoje, um dos meios mais poderosos à disposição dos opressores para a mantença da desigualdade, exploração e servil obediência por parte dos trabalhadores” (p. 247).

“Religião, sedativo dos pobres”. Os comunistas alegam que a religião é o ópio do povo porque ensina aos pobres os seus deveres para com os ricos, e lhes promete uma outra vida ao invés de melhorar a presente. Lenine escreveu: “A fé ortodoxa é cara a eles porque lhes ensina suportarem os infortúnios sem ‘queixa’. Que fé proveitosa não é essa, realmente — para as classes governamentais? Numa sociedade organizada de tal modo que uma insignificante minoria desfruta a riqueza e o poder, ao passo que as massas constantemente sofrem privação e severas obrigações, inteiramente natural é simpatizarem os exploradores com essa religião que nos ensina a suportar ‘sem queixa’ as dores do inferno na terra, na esperança de um prometido paraíso no céu” (Iskra N.º 16, 14 de Fevereiro de 1902). E novamente: “A religião ensina aqueles que labutam na pobreza toda a sua vida a serem resignados e pacientes neste mundo, e consola-os com a esperança de uma recompensa no céu… O desamparo de todos os explorados na sua luta contra os exploradores gera inevitavelmente a crença numa vida melhor após a morte, tal como o desamparo do selvagem nas suas lutas com a natureza dá nascimento a uma crença em deuses, demônios e milagres” (Novaya Zhizn N.º 28, 16 de Dezembro de 1905).

“Religião, entorpecente da humanidade”. O terceiro argumento oferecido pelos comunistas em abono da sua afirmação de que a religião é o ópio do poro é o de que, pela sua própria natureza, a religião torna o homem passivo. Pregando constantemente a resignação à própria sorte e a resignação à vontade de Deus, ela adormenta o homem ativo e torna-o descuidado no tocante à sua condição econômica. Por exemplo, na sua obra O ABC do Comunismo, N. Houharin declara que “há um conflito irreconciliável entre os princípios do Comunismo e os mandamentos da religião”. E, como uma evidência do caráter passivo da religião, cita ele o código cristão: “Quem quer que te ferir na face direita, oferece-lhe também a outra”. E então acrescenta: “Todo aquele que, embora chamando-se comunista, continua a aderir à sua fé religiosa, quem quer que em nome dos mandamentos religiosos infringe as prescrições do Partido, por isso mesmo cessa de ser comunista. É proveitoso para a classe rapinante manter a ignorância do povo e manter a crença infantil do povo em milagres (a chave do enigma fica realmente no bolso dos exploradores), e é por isto que os preconceitos religiosos são tão tenazes; é por isto que eles confundem as mentes mesmo de pessoas que, a outros respeitos, são capazes” (p. 248).

Uma distinção a fazer. Tal é a atitude oficial do Comunismo para com a religião, apresentada nas palavras dos seus melhores expoentes. Resta agora julgar-lhes as razões calma e desapaixonadamente. Antes de iniciarmos uma apreciação crítica desses argumentos, uma reflexão geral deve ser feita, a saber: devemos distinguir cuidadosamente entre o que a religião é naqueles que se professam religiosos, e o que a religião é na sua natureza e no seu programa. No tocante aos que se professam religiosos, deve-se admitir que há alguns exemplos em que a religião foi usada como ópio do povo. Não há dúvida de que às vezes indivíduos inescrupulosos têm usado a religião como um instrumento de exploração e domínio. Pedro o Grande na Rússia, Napoleão na França, e mesmo o último Czar, oferecem exemplos clássicos de semelhante abuso da religião. Um professor da Universidade de Yale, falando do declínio da Cristandade não-católica, atribui isso principalmente à identificação que alguns pregadores têm feito entre religião e uma ordem social decadente que às vezes tem sido ré de exploração.

No tocante a esses indivíduos que têm usado para fins baixos a instituição social da religião, compartilhamos a indignação de Lenine. Porém o que ele e seus companheiros comunistas esquecem é que essas são exceções, e não estão no espírito nem no programa da religião. Nunca poderíamos admitir que a religião que Nosso Senhor fundou tenha favorecido o rico contra o pobre. As palavras de advertência do Mestre ainda nos soam aos ouvidos: “Bem-aventurados os pobres em espírito… Ai de vós que sois ricos… Já tendes a vossa recompensa… As raposas têm tocas, as aves do ar têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde pousar a cabeça”. A História inscreveu-o nos seus registros como o Pobre universal, o qual, no seu nascimento, teve de se contentar com um abrigo que não lhe pertencia, e, na sua morte, com um túmulo alheio. A história da religião que Ele fundou é a história de uma Igreja que por dezenove séculos tem cuidado dos pobres e dos fracos e dos enfermos em hospitais e orfanatos e escolas e instituições de caridade, e isso por nenhuma outra razão senão a de que ela vê a Cristo no pobre. Atitude muito infantil, revelando falta de raciocínio crítico da parte dos comunistas, é argüirem eles que, pelo fato de alguns poucos haverem prostituído a santidade da religião, por isto a religião é vil. O fato de haver algumas moedas falsas no mundo não é razão para se abolir o dinheiro; o fato de haver alguns indivíduos que praticam bandalheiras não é razão para se suprimir o governo; o fato de alguns automobilistas serem negligentes não é razão para que se destruam os automóveis; e o fato de haver alguns que traem o Cristianismo não é razão para se destruir o Cristianismo.

(Bispo Fulton J. Scheen. Comunismo: ópio do povo. Petrópolis, Vozes, 1952).