Todos conhecem a frase que Dostoiévski pôs na boca de um de seus personagens: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Ou seja, a não existência de Deus significa que vivemos num mundo de completa liberdade moral; podemos fazer o que fôr, inclusive assassinatos de massa. É provável que Dostoiévski não ficasse surpreso se um regime ateu como o comunismo, que controlou a Rússia por décadas depois da sua morte, se comprometesse com assassinatos de massa.

Mas o que ele queria dizer com a palavra Deus, quando a pronunciava? Não se referia a um Deus panteístico, um Deus que se identifica com a Natureza.  Essa espécie de Deus, que pode nos impelir a comportar dessa ou daquela forma (comer, beber água, fazer sexo), fornecendo-nos os impulsos naturais para realizar esses comportamentos, não elabora regras nem publica mandamentos.

Não, o Deus pensado por Dostoiévski é o Deus bíblico, o Deus do cristianismo. O Deus bíblico é legislador e juiz. Portanto, uma versão ampliada da famosa frase de Dostoiévski poderia ficar mais ou menos assim: “Se Deus legislador e juiz não existe, tudo é permitido”.

Segundo Dostoiévski, se alguem é ateu — um ateu logicamente coerente —, acreditará que é moralmente livre para fazer o que queira; acreditará que não há regras de moralidade.

Mas isso, realmente, parece ser falso. Olhemos ao nosso redor: há muitos ateus vivendo nos Estados Unidos, hoje em dia; muito mais, seguramente, do que os que viviam na Rússia no tempo de Dostoiévski; e esses ateus americanos de agora não crêem que sejam moralmente livres para fazer o que queiram. Com poucas exceções, não assassinam, estupram, incendeiam, roubam, etc. Geralmente, são bem comportados e cumpridores da lei.

Na verdade, os ateus de hoje com frequência se comprometem com certos tipos de comportamento que os cristãos ultrapassados considerariam imoral, tais como fornicação, homossexualismo, aborto, suicídio. Mas não porque pensam não haver regras de moralidade, mas por compreenderem que as regras de moralidade permitam essas espécies de comportamentos não cristãos.

Os ateus americanos típicos crêem que as regras de moralidade são coisas produzidas pelo homem, e não por Deus. Elas são feitas (a) pela sociedade em geral; ou (b) por alguma subdivisão da sociedade, algum grupo subcultural ao qual essa ou aquela pessoa pertença; ou (c) pelo próprio indivíduo.

Mas por que o indivíduo deveria obedecer as regras (a) e (b)? Certamente, o faria por prudência, já que sua sociedade ou seu grupo subcultural são verdadeiramente poderosos, e geralmente estão em condições de puni-lo, caso ele viole essas regras. Mas o faria porque tem a obrigação moral de obedecer a essas regras? Há alguma autoridade moral acima dessa sociedade, que diz “deves obedecer às regras da tua sociedade”?

Deus poderia ser essa autoridade, mas para os ateus Deus não existe. Talvez ele dissesse que, acima desta ou daquela sociedade (a sociedade dos EUA, por exemplo), haja uma sociedade-mundial, e seria essa sociedade mundial a nos dizer: “Deves obedecer às regras da sociedade americana”.

Mas de onde esta hipotética sociedade mundial retira a sua autoridade moral? Se não há um Deus legislador chamando-nos a obedecer às ordens dessa sociedade mundial, como pode alguém ter o dever moral de obedecer às ordens daquela sociedade mundial? Falando de modo geral, se não há uma lei superior feita por Deus dizendo-me que obedeça às leis feitas pelos homens, por que deveria obedecer às leis da minha sociedade ou minha sub-sociedade?

Em última análise, pensando a partir de um ponto de vista ateu mais consistente em termos lógicos, dir-se-a que somente a pessoa individual pode fornecer a si mesma uma lei moral: ou (coisa muito rara) ela cria seu próprio código pessoal de moralidade; ou (coisa bem comum) aceita o código moral oferecido pela sociedade em geral, ou por seu grupo subcultural; ou seu código de moralidade resulta de uma combinação dos dois.

Em outras palavras, a pessoa é “moralmente autônoma”, para usar uma expressão comumente ouvida entre os ateus de hoje. Ou seja, é o seu próprio legislador moral, ocupando uma posição no universo moral que antes se pensava pertencer a Deus.

De fato, não muitos ateus atualmente pensam assim. Não muitos dizem, explicitamente, para si mesmos: “Eu sou o meu próprio legislador e juiz”; ou “Moralmente falando, ocupo uma posição que meus avós pensavam ser ocupada por Deus”.

Isto é o que eles dizem por implicação; mas, conforme o tempo passa e eles refletem mais em suas atitudes, mais e mais pessoas como eles o dirão explicitamente. Nenhuma sociedade foi ainda construída sobre tais alicerces, e é uma questão aberta saber se isso é possível. Veremos.

https://www.thecatholicthing.org/2016/08/11/the-wages-of-moral-autonomy/