1. São Gregório Magno, cuja memória a Igreja hoje celebra, ensina-nos que a vida espiritual do cristão tem de passar por duas fases principais. A primeira, por ele denominada “vida ativa”, consiste predominantemente na ascese; é nesta etapa, com efeito, que o fiel mais precisa dedicar-se ao exercício das virtudes — morais e teologais —, à educação de suas paixões, à prática regular da lectio divina e da meditação etc. É por meio de tais esforços preparatórios que o homem, ajudado pela graça sobrenatural, poderá chegar enfim à segunda fase, ou seja, à chamada “vida contemplativa”: uma vida, em resumo, de amor, de intimidade e de união com Deus. Pela ascese, pois, matamos o homem velho que em nós habita; pela vida contemplativa, tornamo-nos em Cristo homens novos, capazes de participar do matrimônio celeste que o Senhor deseja celebrar conosco. Ao chegar, porém, aos cumes da vida espiritual, o cristão adquire o grave dever de tornar-se pregador, a fim de que outras almas descubram o Amado que ele, após tantos trabalhos e fadigas, aprendeu a amar. Porque se de fato nos ousamos chamar cristãos e pretendemos um dia nos unir a Cristo Jesus, não podemos deixar de desejar essa união maior, que é a expansão caridosa dos membros do Corpo Místico de nossa divina e amável Cabeça.

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2. Temos em S. Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja, a prova cabal de que um cristão dedicado à contemplação e à vida interior tende, como por necessidade, a ser também um bom pastor, prudente e zeloso na condução espiritual das outras almas, mas não vice-versa. Noutras palavras, quem não reza nem se preocupa em conhecer e amar a Deus na oração jamais será verdadeiro apóstolo; seus afãs pastorais não serão mais do que simples agitação externa, desprovida daquela riqueza interior de graças e virtudes sem a qual acabamos vivendo um cristianismo de fachada. É no encontro diário com Deus, no silêncio da oração íntima, que Ele nos quer transformar, moldar à imagem de Cristo, Pastor eterno, e conferir ao nosso apostolado a eficácia que, sem esse recolhimento constante, teria pouco ou nenhum valor, como as fainas ansiosas de uma Marta inquieta (cf. Lc 10, 41). Não há dúvida, portanto, de que foram os seus primeiros anos como monge que prepararam S. Gregório para a gravíssima missão, por ele desempenhada perfeitamente, de suceder a Pedro no governo da Igreja universal, confirmar os irmãos na fé, reformar os costumes de uma cristandade nem sempre exemplar e circundar de todos os cuidados a divina Liturgia. Gregório foi grande, com efeito, por ter sido não só um Papa memorável, mas um cristão digno do nome, exemplo de oração, mestre de vida espiritual, prova de que a piedade deve ir de mãos dadas com a ortodoxia e esta com os mais ternos sentimentos para com Nosso Senhor. Que, a exemplo deste santo pontífice, saibamos também nós ser primeiro santos contempladores, para só então sermos santos pregadores.

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