A primeira grande época da música ocidental, a da polifonia vocal, costuma ser chamada“medieval”. Mas esse adjetivo não é exato. Medieval é a ars antiqua. Medieval é a ars nova. Mas as obras fundamentais sobre aquela grande época1 tratam também e sobretudo de Josquin des Près e de Orlandus Lassus, de Palestrina, Victoria e dos dois Gabrieli, um pouco indistintamente: toda a música dos séculos XV e XVI é chamada, desde os começos da historiografia musical na época do romantismo, de “música antiga”, em relação à “nova”, isto é, desde o início do século XVIII. Nessa perspectiva confundem-se a Idade Média, a Renascença e parte do Barroco. Mas, na verdade, a Idade Média propriamente dita já não faz parte da grande época na qual predomina a polifonia vocal.

Quanto à primeira fase dessa época se costuma falar em mestres “flamengos”. O adjetivo significa menos uma nação do que determinado espaço geográfico: de Paris a Dijon, através de Reims e Cambrai e Mons até Bruxelas, Bruges e Antuérpia, quer dizer, a Bélgica e o norte da França. Região na qual se falava, então, o flamengo e o francês, aquela língua mais no norte e para o uso cotidiano, esta mais para os fins superiores da sociedade e da arte. É o espaço então ocupado pelo ducado de Borgonha, que durante o século XV é a região mais altamente civilizada ao norte dos Alpes. Só no fim do século, a Borgonha será desmembrada, ficando parte com a França, enquanto a outra parte formará os Países-Baixos austríaco-espanhóis.

A música da Borgonha no século XV corresponde à pintura dos Van Eyck, Roger van der Weyden, Hugo van der Goes e Memling; à poesia de Eustache Deschamps e Villon; à arquitetur aflamboyante, último produto do espírito gótico já em decomposição. É a época à qual o grande historiador holandês Jan Huizinga deu o apelido inesquecível de “outono da Idade Média”.

É uma civilização caracterizada pelas requintadas formas de vida de uma corte, a da Borgonha, na qual o feudalismo já perdeu sua função política, social e militar, fornecendo apenas regras de jogo como num grande espetáculo pitoresco. O fundo é menos requintado: a grosseria popular invade os costumes aristocráticos; na arte, ela aparece como espécie de folclore sabiamente estilizado, na poesia de Villon. Os costumes são brutais. Mas por esses pecadores rezam e cantam os monges e as beguinas, vozes da angústia religiosa de uma época de agonia espiritual.

As formas musicais dessa civilização são a missa e o motete cantados, a capela, isto é, sem acompanhamento instrumental. Parecem-se com as construções do gótico flamboyant, os paços municipais de Louvain e Audenarde, feitos como de rendas de pedra: arabescos e ornamentos infinitamente complexos. A ciência contrapontística dos mestres “flamengos” constrói catedrais sonoras, de complexidade sem par em qualquer época posterior. A escritura é rigorosamente “linear”, “horizontal”, isto é, as vozes procedem com independência (enquanto na música “moderna” se sucedem acordes, “colunas verticais” de sons). É essa independência das vozes que, quando coincidem eufonicamente, produz a impressão de coros angélicos. Mas como temas musicais, que dão os nomes às missas dos compositores, servem canções populares da época: L’homme armé, Malheur me bat, Fortuna desperata…, Se la face…, canções eróticas e até obscenas. Esse “populismo” não ilude. Não se trata de arte popular. Nas cidades flamengas e francesas está em plena decomposição o corporativismo medieval. Os mestres “flamengos” não são artesãos. São cientistas da música, exercendo uma arte que só o músico profissional é capaz de executar e compreender. As incríveis artes contrapontísticas de escrever em até 36 e mais vozes independentes, de inversão e reinversão de temas, em “escritura de espelho”, em “passo de caranguejo”, nem sempre parecem destinadas ao ouvido; a complexidade da construção só se revela na leitura. É música que menos se dirige aos sensos do que à inteligência. É arte abstrata.

O mar que banha aquela região franco-flamenga é o canal da Mancha. Do outro lado da Mancha, do país do cânone Sumer is i-cumen in, veio o primeiro grande contrapontista, o inglês John Dunstable (1370-1435), ao qual já se atribui maior liberdade de invenção que aos mestres da ars nova; que os leitores julguem conforme seu motete Quam pulcra es, que foi gravado em disco. Dunstable esteve esquecido durante séculos. Mas em seu tempo passava por compositor de grande categoria e mestre dos mestres “flamengos”.

(Em: Otto M. Carpeaux, Uma nova história da musica)

John Dunstable, Veni Creator Spiritus, pelo grupo coral inglês “Pro Cantione Antiqua”