Tolkien, C. S. Lewis e amigos

“Por quanto tempo, perguntei-me, isso poderia durar? Contudo, a época dos milagres ainda não passou.” (Ira Gershwin)

A renovação das artes católicas não virá da Igreja.  Estou preparado para crer em milagres, mas a ideia de que a hierarquia católica fará da literatura e das artes uma prioridade, tomando a decisão inteligente de apoiá-las, é algo que ultrapassa toda e qualquer credulidade. Os bispos podem, ocasionalmente, entoar algum cântico mais nobre em matéria de cultura, mas seus corações estão noutros lugares: têm problemas mais urgentes a resolver, incluindo alguns relativos a seu próprio trabalho.

A indiferença eclesiástica, no entanto, é uma grande benção; talvez até seja o milagre que espero. Preocupada com outros problemas, é improvável que a hierarquia queira interferir em alguma espécie de despertar cultural. Creio mesmo que não perceberá nenhuma renovação artística, a não ser muito depois dela já estar totalmente presente no mundo.

A renovação da literatura católica só poderá ocorrer pelos esforços dos próprios escritores. A cultura não é uma abstração intelectual. É uma força humana que se exprime através da criatividade, do diálogo e da comunidade; depende da criatividade individual em alimentar a consciência, que, só então, poderá se expandir e aperfeiçoar através do diálogo crítico.

São essas permutas que sustentam uma comunidade de valores compartilhados. O importante trabalho dos escritores significa muito pouco, se não for reconhecido e apoiado por uma comunidade de críticos, educadores, jornalistas e leitores. A comunhão dos santos não é só um conceito teológico: é o modelo para uma vibrante cultura literária católica.

Há muitos talentos literários católicos por aí — na criação, na crítica, na pesquisa erudita —, porém a maior parte deles parece andar dispersa e isolada. Falta um sentido mais vivo de comunidade cultural, em especial a convicção de que, reunidos, esses indivíduos poderiam provocar uma mudança significativa no mundo. Se os homens de letras católicos retomassem o sentido de missão compartilhada, os resultados ampliariam e transformariam a cultura literária.

Se o estado da cultura literária católica contemporânea puder ser sugerido pela imagem do velho e decadente bairro de imigrantes [v. aqui], permitam-me sugerir que é hora dos escritores e intelectuais católicos deixarem os banais e homogêneos subúrbios da imaginação e voltar à cidade grande, a partir da qual poderemos renovar esses notáveis distritos abandonados — que têm tanto encanto e personalidade, tanta força e tradição.

É hora de renovar e reocupar a nossa própria tradição. Começar uma renovação pode parecer uma tarefa difícil, mas à medida que cada lugar é reconstruído, outra pessoa já estará no empreendimento ao lado, e, gradualmente, toda a cidade se reformulará a si mesma.

Renovar é um trabalho pesado. No entanto, é um preço que vale a pena, se o resultado é ter a casa em ordem.

Em https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today