Figura: “Cristo Pantocrator” na Basílica de Santo Apolinário em Ravena, Itália.

A questão de como decorar essas basílicas [do IV século] foi muito mais difícil e séria, porque a questão da imagem e seu uso na religião surgiu de novo e causou disputas muito violentas. Num ponto, quase todos os primeiros cristãos concordavam: não devia haver estátuas na Casa do Senhor. As estátuas pareciam-se demais com aquelas imagens esculpidas de ídolos pagãos que a Bíblia condenava.

Colocar uma figura de Deus ou de um de Seus santos no altar parecia inteiramente fora de questão. Pois como os míseros pagãos que tinham se convertido recentemente à nova fé apreenderiam a diferença entre suas antigas crenças e a nova mensagem, se vissem tais estátuas nas igrejas?

Poderiam facilmente pensar que uma estátua “representa” realmente Deus, tal como pensavam antes que uma estátua de Fídias representa Zeus. Assim, eram capazes de achar até mais difícil compreender a mensagem do Deus Todo-Poderoso, Invisível e Uno, a cuja semelhança tinham sido feitos.

Mas, embora todos os cristãos devotos pusessem objeções às grandes estátuas copiadas da vida real, suas idéias sobre pinturas diferiam bastante. Alguns as consideravam úteis porque ajudavam a congregação a recordar os ensinamentos que haviam recebido e mantinham viva a memória desses episódios sagrados.

Esse ponto de vista foi principalmente adotado na parte latina, ocidental, do Império Romano. O Papa Gregório Magno, que viveu no final do século VI D.C., seguiu essa orientação. Lembrou, àqueles que eram contra todas as pinturas, que muitos membros da Igreja não podiam ler nem escrever, e que, para ensiná-los, essas imagens eram tão úteis quanto os desenhos de um livro ilustrado para crianças. Disse ele: “A pintura pode fazer pelos analfabetos o que a escrita faz para os que sabem ler”.

Foi de uma importância imensa para a história da arte que uma tão grande autoridade tenha acudido em favor da pintura. Sua sentença seria repetidamente citada sempre que as pessoas atacavam o uso de imagens nas igrejas.

(Texto extraído de Ernst Gombrich, História da arte)