Eugenio Corti, escritor católico italiano (1921-1914)

 

“Posso, com meu olho vesgo, aceitar tudo como uma benção.” Flannery O’Connor

Nessa cultura, nessa Igreja, nessa época, que pode fazer um escritor católico? Isolado, desacreditado, ignorado, como poderia sobreviver e, alem disto, prosperar? As coisas não teriam ido longe de mais para ainda restar uma chance de mudança?

A única resposta é: não. As épocas são sempre ruins. A cultura está sempre com problemas. Os bárbaros estão sempre às portas, e alguma parte da Igreja necessitará, inevitavelmente, de uma boa faxina. “O tempora! O mores!” é uma queixa permanente. Como todo católico já sabe, vivemos num mundo decaído, no qual no entanto — ó félix culpa — nos alegramos com as possibilidades de redenção.  Para o artista, cada problema representa uma espécie de oportunidade.

É preciso esclarecer, aqui, que a história não resolve problemas, que a cultura não resolve problemas: só as pessoas podem fazê-lo. A história da Igreja e a história da arte demonstram, repetidamente, que poucas pessoas, mas com suficiente paixão, coragem e criatividade, podem transformar uma época. Ao estudar a vida dos santos, sabemos do poder que suas obras e seus exemplos tiveram para mudar suas épocas. São Francisco de Assis teve mais impacto sobre a sociedade européia que qualquer governante do Sacro Império Romano.

Os novos movimentos artísticos se originaram de maneira semelhante. Desenvolveram-se pelos esforços de poucos indivíduos catalisadores, que rejeitam um status quo falido ou moribundo, articulando uma nova e premente visão das coisas. O simbolismo francês e o romantismo inglês, por exemplo: foram movimentos internacionais transformadores, que começaram com um punhado de escritores. A nova visão, articulada e encarnada em obras modelares, espalhou-se muito rápido, verdadeiramente indomável, unindo as pessoas sob uma causa comum.

O sucesso dos movimentos culturais e religiosos revela, sempre, que muitas pessoas já compartilhavam dos novos ideais que despontavam; ainda não se sentiam, no entanto, seguras para seguir o novo caminho: aguardavam pelo decisivo e confiável apelo público à ação. O verdadeiro desafio não estava no número dos participantes, mas na presença de inovadores eficazes, que funcionavam como catalisadores culturais (dois grandes poetas são mais importantes que dois mil medíocres).

Na realidade, o escritor católico precisa só de três coisas para ser bem sucedido: fé, esperança e habilidade.

Primeiramente, o escritor deve ter fé: tanto no poder da arte, como do espírito. O cinismo que impregna a vida cultural contemporânea deve ser substituído por uma forte confiança nos propósitos humanos e na importância da arte, que não pode ser reduzida a luxo elitista ou a divertimento de intelectuais. É um ingrediente fundamental para o desenvolvimento humano, tanto individual como comunitário. A arte educa nossas emoções, nossa imaginação. Desperta, amplia e aperfeiçoa nossa humanidade. Elimina-la, dilui-la ou perverte-la é prejuízo certo para a comunidade e a própria nação: as pessoas tornam-se menos compassivas, curiosas e atentas; e mais grosseiras, mais limitadas, mais autossatisfeitas.

O escritor católico deve, também, recuperar a confiança em sua própria identidade espiritual, cultural e pessoal. Como eu poderia, por exemplo, enquanto americano de ascendência italiana ou mexicana, compreender a mim mesmo sem reconhecer a ligação essencial com o catolicismo? Ele está em meu DNA, através de gerações de ancestrais. O catolicismo é minha fé, minha herança, minha visão de mundo, minha mitologia e minha comunidade. Banir ou negar esse núcleo espiritual — por qualquer razão que seja — significa perder uma parte de minha autenticidade como artista.

Essa perda se manifesta no sofrimento tão perceptível em textos de ex-católicos, pois dói renunciar a uma parte da própria identidade (mesmo quando se considera a abnegação uma necessidade). Quem poderia culpá-los por escrever com tanto ardor sobre a Igreja? Um membro amputado também pode produzir grande sofrimento. Recusam-se, com razão, a tornar-se escritores homogêneos e genéricos, imersos numa cultura global secularizada. Não mais possuem um lar espiritual, exceto a própria dissidência.

Um escritor católico também deve ter esperança. Esperança nas possibilidades da arte e em seus próprios esforços. Esperança na habilidade histórica da Igreja de mudar quando é preciso mudar. A principal barreira para o renascimento da escrita católica, a aproximação da fé com as artes, é o desespero; ou talvez, mais precisamente, a acidia, essa tórpida indiferença que acomete justamente as pessoas que poderiam mudar a situação: artistas e intelectuais católicos.  A esperança é o que motiva e sustenta a iniciativa dos escritores, já que o sucesso pode vir muito devagar, cheio de contratempos.

Finalmente, há um terceiro elemento que nada tem a ver com religião. A Musa não é calvinista. Não crê que a fé sozinha possa justificar o artista. O escritor precisa de boas obras — boas obras literárias. O objetivo do escritor católico sério é o mesmo que o de todo verdadeiro escritor: criar uma obra de arte eficiente, expressiva, que permaneça. Flannery O’Connor observou, certa vez: “O romancista católico não tem de ser um santo; nem mesmo tem de ser católico; mas, infelizmente, é preciso que seja um romancista.”

O caminho de Damasco pode oferecer ao viajante intervenções inesperadas e miraculosas, mas a fé não proporciona atalhos à estrada do Parnaso. Todo escritor deve dominar o ofício da literatura, as possibilidades da linguagem, os modelos legados pela tradição, e depois associar o que aprendeu ao próprio percurso pessoal, rumo à perfeição e à inovação. Há uma ingenuidade deformada entre muitos escritores religiosos (e mesmo editores), segundo a qual as santas intenções compensariam uma escrita medíocre. É tolice uma fé (ou caridade) assim deslocada.

O escritor católico deve ter a paixão, o talento e a habilidade necessários para dominar o ofício em termos estritamente seculares, sem nunca esquecer as possibilidades e responsabilidades espirituais da arte. Trata-se de um duplo desafio, que oferece, porém, uma grande vantagem.

A fé não proporciona atalhos ao monte Parnaso, mas proporciona ao peregrino literário um panorama mais claro, depois que ele atinge o cume. O escritor católico tem a inestimável vantagem de possuir uma visão de mundo profunda e verdadeira, que tem sido articulada, explorada e amplificada por dois mil anos de arte e filosofia, uma tradição cujos símbolos, histórias, personalidades, conceitos e correspondências ajunta uma enorme ressonância a qualquer obra artística.

Ser escritor católico é colocar-se no centro da tradição ocidental, em termos artísticos; e essa perspectiva tem grande valor em época de confusão intelectual, como a nossa. O escritor católico compreende a relação necessária existente entre verdade e beleza, que não é uma simples convenção da sociedade ou acidente da cultura, mas uma forma essencial do conhecimento humano, que é intuitivo, holístico e experiencial.

A arte é uma forma de conhecimento — distinto e legítimo, enraizado no sentimento e no deleite — que revela, nas palavras de Jacques Maritain, “o esplendor dos segredos do ser que se irradia em busca da inteligência”. Esse tipo de conhecimento torna possível o grande potencial que a literatura católica possui para, ao mesmo tempo, retratar o mundo material e o mundo físico dos sentidos, e revelar, sob tudo isto, uma outra dimensão, invisível e eterna.

Em https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today