Tinha me esquecido completamente da religião, ignorando-a como um selvagem. O primeiro vislumbre de verdade me foi dado pelo encontro dos livros de um grande poeta — Arthur Rimbaud — a quem devo uma eterna gratidão, tendo na formação do meu pensamento um papel importante. A leitura das Iluminações, alguns meses depois de ter lido Uma temporada no inferno, foi para mim um acontecimento fundamental.  Pela primeira vez, esses livros abriram uma fresta em minha prisão materialista, dando-me a impressão viva e quase física do sobrenatural. Contudo, meu estado habitual de asfixia e desespero permanecia o mesmo.

Foi essa criança infeliz que, em 25 de dezembro de 1886 [com dezoito anos], entrou na Notre-Dame de Paris para acompanhar os ofícios religiosos de Natal. Eu estava começando a escrever e pareceu-me que nas cerimônias católicas, consideradas com um diletantismo superior, eu encontraria um bom excitante e a matéria-prima de que precisava para alguns exercícios poético-decadentistas. Foi com essas disposições interiores que, acotovelado e empurrado pela multidão, assisti, quase sem gosto, à Missa solene.

Mais tarde, não tendo nada de melhor para fazer, voltei às Vésperas. Um coro de crianças, de roupas brancas, e os alunos do seminário menor de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, que as assistiam, estavam cantando o que mais tarde soube ser o Magnificat. Eu estava de pé no meio da multidão, próximo ao segundo pilar, na entrada do coro, do lado direito da sacristia.

E foi então que ocorreu o fato que dominou toda a minha vida. Num só instante, meu coração foi tocado e eu acreditei. Acreditei com tal força de adesão, com tal insurreição de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com uma certeza incapaz de deixar margem para qualquer tipo de dúvida, que, desde então, todos os livros, todos os raciocínios, todos os acontecimentos inesperados de uma vida agitada, não puderam abalar minha fé, nem mesmo de leve. Tive, de repente, a devastadora sensação da inocência, da eterna infância de Deus — uma revelação inefável.

“Contacts et circonstances”, Œuvres en Prose, Gallimard, La Pléiade, pp.1009-1010.