Há a tentação, entre membros de uma elite cultural, de ver seus valores como as únicas virtudes respeitáveis, uma tendência que cega o grupo tanto para a inovação cultural como para a dissensão estética, principalmente aos que se acham à margem da sociedade intelectual estabelecida.

Jazz, blues, cinema, romance policial, ficção científica e fotografia foram, todas elas, artes que surgiram sem a aprovação da elite, e, mesmo assim, deram uma indiscutível contribuição à cultura americana.

Olhando em retrospecto, parece evidente que a grande realização da ficção americana de meados do século XX dependeu da presença de vozes judaicas, católicas e afroamericanas. Essas vozes, com seus peculiares acentos — Saul Bellow e Bernard Malamud, Flannery O’Connor e J. F. Powers, Ralph Ellison e James Baldwin — abriram novos horizontes à ficção americana, exprimindo visões de mundo de grupos anteriormente marginalizados.

Pessoas à margem viam certas coisas com mais clareza do que os privilegiados que viviam no centro. Quando a elite e os poderosos silenciam tais vozes mais à margem, a cultura se petrifica no convencional. Todo leitor secularizado, que deseja ver bem distantes as vozes católicas, acaba por favorecer, inconscientemente, o estreitamento e a homogeneização das letras americanas.

A outra consequência desse cisma cultural afeta diretamente a Igreja, cuja perda da sensibilidade estética enfraqueceu as habilidades que possuía para fazer o seu apelo ser ouvido no mundo. Dante e Hopkins, Mozart e Palestrina, Michelangelo e El Greco, Bramante e Gaudi, levaram mais almas para Deus do que todos os pregadores do Texas. O desaparecimento da grande música, pintura, arquitetura, poesia, escultura, ficção e teatro limitou os meios pelos quais a Igreja falava às pessoas, tanto no interior como fora da fé.

Com suas façanhas teológicas e filosóficas, o catolicismo revela, de maneira adequada, o que está enraizado em dois milênios de prática e domínio intelectual. E é certo que a teologia é importante, mas o pensamento analítico formal — esplendor e miséria do catolicismo romano — não é o primeiro meio pelo qual muitas pessoas experimentam, aceitam ou rejeitam uma fé religiosa. Experimentam os mistérios da fé (ou fracassam no faze-lo) na totalidade do seu ser humano, através de suas emoções, imaginação e sentidos, assim como com sua inteligência.

Até recentemente, a grande força do catolicismo foi a sua gloriosa fisicalidade, a sua habilidade em transmitir suas verdades de forma encarnada. A fé não era só exposta através da doutrina, mas se refletia na arte sacra, na música, na arquitetura e na poesia litúrgica. Até Santo Tomás de Aquino admitia haver ocasiões em que era preciso deixar à parte a teologia e escrever poemas. Seus versos esplêndidos ainda são cantados, com incenso, na Bênção Eucarística. “Sinos e incenso!”, zombam os puritanos, mas o fato é que Deus deu às pessoas narizes e ouvidos. São tão humildes esses órgãos da percepção, que não possam ser levados à igreja? Por uma muito boa razão, a participação na Missa envolve todos os nossos sentidos. Obrigatoriamente, levamos toda a nossa pelosa e pesada humanidade para adorar.

Em nenhum lugar o declínio artístico do catolicismo é mais dolorosamente evidente do que nas novos templos católicos — arquitetura sem graça, pintura estereotipada, escultura banal, música mal concebida e mal executada, sem contar as homilias superficiais e carregadas de clichês. Lamentavelmente, o mesmo ocorre com a liturgia, em que frequentemente se misturam o mais trivial e o mais seráfico.

O impulso legítimo do Vaticano II de tornar a Igreja e sua liturgia mais moderna e acessível foi implementado, na maioria das vezes, por um clero despreparado em relação às artes. A esses reformadores ansiosos e bem-intencionados não faltava só discernimento artístico, como também compreensão respeitosa da própria arte, fosse ela sagrada ou secular. Concebiam palavras, música, imagens e arquitetura como entidades meramente funcionais, cujo papel era sobretudo intelectual e racional.

O problema é que a arte não é primariamente conceitual ou racional: é holística e encarnada, visando simultaneamente o intelecto, as emoções, a imaginação, os sentidos físicos e a memória, sem separá-los. Duas canções podem enunciar coisas idênticas em termos conceituais, mas uma delas atravessa as almas com sua beleza, enquanto a outra só produz tédio e catalepsia.

Na arte, boas intenções não importam de maneira alguma. Tanto o impacto como o significado da arte estão encarnados em sua execução. Ou a beleza é encarnada —ou permanece uma abstração intangível.

Sempre que a Igreja abandonou a noção de beleza, perdeu precisamente o poder que esperava cultivar: sua capacidade de atrair as almas no mundo moderno. É de admirar que tantos artistas e intelectuais tenham fugido da Igreja? O culto católico atual ignora, muitas vezes, a conexão essencial entre verdade e beleza, corpo e alma, que estão no centro da visão de mundo católica. A Igreja exige que sejamos fiéis, mas devemos também ser surdos, mudos e cegos? Sei que mereço sofrer pelos meus pecados, mas boa parte desses castigos devo sofrer pela própria situação da Igreja?

Em https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today

[Dana Gioia é um poeta e crítico-literário católico americano. Nasceu em 1950. É casado e tem três filhos. Página pessoal do autor: http://danagioia.com/]