Não é raro, hoje em dia, o católico encontrar, em meio às tradicionais orações da Igreja, a presença de palavras, expressões ou até frases inteiras que fogem completamente ao estilo cristão de rezar. São palavras, expressões ou frases de clara conotação política, do setor mais à esquerda da política, dominado pelo vocabulário do marxismo, condenado por todos os Papas fiéis ao Magistério de sempre.

O que dizem tais palavras, expressões ou frases mais sociológicas do que teológicas? É o mesmo refrão de sempre: pede-se pelos pobres, pelos marginalizados, pelas vítimas de preconceitos. O pedido é justo, mas a forma com que é feito está claramente comprometida por insinuações ideológicas. Algumas vezes, há uma tal insistência e ênfase na abordagem desses temas, que o católico tem a impressão de que os autores de tais textos já não crêem na vida sobrenatural; e que o novo céu e a nova terra, prometidos por Deus para a eternidade, devessem se realizar pelagianamente neste mundo, aqui e agora, a partir de um esforço social, político, humano.

Ao contrário, a Igreja Católica tem repetido, desde sempre, que todos os batizados são filhos de Deus, sejam pobres ou ricos; e que, no fundo, somos todos pobres, pobres, pobres: pobres pecadores.

Quem será mais necessitado de orações do que o rico? Jesus mesmo já avisou, no Evangelho, que é mais difícil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico salvar-se, tais são os obstáculos que a riqueza material oferece às pessoas. Pensemos, sobretudo, nos pecados capitais a que estão sujeitos os ricos (e, obviamente, também os pobres): acúmulo desnecessário de bens, sofrimento com o sucesso do próximo, exibicionismo do próprio sucesso, revolta contra os obstáculos interpostos. Em primeiro lugar, prejudica-se a si mesmo com a sua soberba, sua vanglória, sua avareza, sua ira. E, evidentemente, prejudica os que o cercam e dele dependem.

A ideologia marxista ensina que os burgueses, detentores dos meios de produção, são inimigos do povo, gerando com tal pensamento um clima de ódio entre as classes sociais e um natural endeusamento das classes desfavorecidas, numa inaceitável idolatria do povo. O cristianismo nunca disse essas coisas. Ao contrário: para ele, ricos e pobres, burgueses e proletários, são todos irmãos, miseráveis irmãos decaídos da Graça e seqüestrados pelo pecado. Se o rico explora o pobre, e se transforma, portanto, em seu inimigo, não deve atrair sobre si o ódio classista do oprimido, mas a oração humilde e confiante. Nada disso deve, obviamente, impedir um pobre empregado de defender-se legalmente do patrão que o explora, como também o patrão relativamente ao empregado que não cumpre as obrigações. Direitos e deveres são para todas as classes.

A oração cristã não pode privilegiar ricos ou pobres. Para melhorar o mundo, não convém jogar uma classe contra outra, nem revoltar-se contra o princípio de autoridade, irando-se contra Deus, o pai ou o patrão. É preciso, antes, levar a sério o que diz São Paulo (ICoríntios 6, 19), ao insistir que somos templos do Espirito Santo.

Ora, a Igreja ensina que onde está o Espirito Santo, estão inseparavelmente as outras duas pessoas da Trindade: Pai e Filho. Logo, somos morada da Trindade Santa e, por conseqüência, de toda a corte celeste. Onde está a Trindade, estão todos os anjos e santos. Misteriosamente, de uma forma que não podemos compreender em plenitude, todo o Céu está condensado dentro de nós. Cada um de nós é um privilegiado microcosmo do Céu.

O objetivo de toda essa maquinaria celeste posta à nossa disposição é a santificação humana. Concretamente, isto significa morte ao pecado, que destrói igualmente a pobres e ricos. O mundo só irá melhorar quando ricos e pobres, entreolhando-se, enxergarem no próximo o Templo vivo do Espírito Santo. Só o Espírito Santo, que habita em cada pessoa, consegue salvar a humanidade. Com Ele, tudo poderia ser criado; só com Ele a face da Terra poderá ser renovada.