“Um bom teste para uma boa religião é saber até que ponto se pode zombar dela.” G. K. Chesterton

O cisma entre o cristianismo e as artes teve duas consequências profundas, dois grandes prejuízos — um para o mundo das artes, outro para a Igreja.

Para o mundo das artes, a perda de uma visão religiosa transcendente (com seu senso aperfeiçoado e rigoroso do sagrado), e a ruptura e abandono de dois mil anos de mitos, simbolismo e tradição cristãs, deixaram a arte americana contemporânea mais pobre espiritualmente. O cinismo, a novidade superficial, o niilismo vulgar e as pretensões espirituais, vagas e sentimentais, de boa parte das artes contemporâneas são o legado desse cisma.

Convém esclarecer-se este último ponto, para evitar mal-entendidos. A arte não precisa ser religiosa; há grandes obra-primas que não possuem transcendência religiosa. O que estou tentando sugerir é algo mais sutil, mais complexo. A vida cultural é um diálogo: uma cultura saudável contém obrigatoriamente vozes diferentes, frequentemente em ativo debate. A voz da fé religiosa alarga e anima toda a dialética da cultura, mesmo entre não crentes, assim como a voz da cultura secular mantém os escritores religiosos mais alertas e inteligentes.

Pode-se tentar remover o religioso como um dos possíveis modos de arte; pode-se tentar separar a cultura das tradições longamente estabelecidas e das disciplinas de espiritualidade; contudo, não se removerão jamais os apetites espirituais, quer dos artistas, quer do público, que acabarão satisfeitos, da forma mais grosseira, com o vago, o pretensioso e o sentimental. O colapso daquela cultura que, em meados do século XX, dava suporte a O’Connor e Porter, Powers e Merton, conduziu a outra cultura, que consome romances infanto-juvenis sobre paranormais, reality shows sobre fantasmas e Wiccans na internet.

O grande e atual perigo para a literatura americana é a crescente homogeneidade de nossos escritores, especialmente os das novas gerações. Frequentemente criados em vários lugares, em comunidades culturais e religiosas não específicas; educados sem conexão profunda a uma região, história ou tradição particular; e trabalhando, na maioria das vezes, em universidades, os nossos escritores se tornaram tão padronizados como o carro americano: funcional, simplificado e cada vez mais substituível.

A globalização, hoje tão óbvia em muitas áreas da economia, incluindo a cultura popular, tem tido um impacto devastador sobre a literatura. Sua influência é especialmente poderosa a partir dos entretenimentos comerciais globalizados — filmes, televisão, música popular e vídeo-games — que agora configuram a imaginação dos jovens escritores mais poderosa e continuamente do que os próprios textos literários. Uma adolescência em Los Angeles não é muito diferente do que em Boston ou Chicago, em que milhares e milhares de horas são gastas, de maneira semelhante, com os mesmos e invariáveis mundos virtuais. Será realmente espantoso que a muitos dos novos textos falte qualquer senso tangível de lugar, sotaques próprios ou viva ligação com o passado? Nutrida mais por entretenimentos eletrônicos globais do que por uma ativa leitura individual, à própria linguagem faltam ressonância e personalidade. Por mais que sejam vistosos e eficientes, esses textos sem passado provavelmente não terão futuro.

Os que antipatizam com o cristianismo — como é seguramente o caso de alguns leitores deste ensaio — tenderão ver o declínio da literatura católica como um sinal de progresso. Parece-lhes uma prova decisiva que ao cristianismo contemporâneo faltem criatividade e inteligência.

Contudo, mesmo em termos seculares, essa posição é míope e autodestrutiva, para não dizer antidemocrática. Não pode ser saudável para a arte o fato da maior minoria cultural da nação (o catolicismo) estar quase ausente do discurso literário. Ao contrário, isso enfraquece a dialética do desenvolvimento cultural, tornando a literatura americana menos diversificada, menos vital, menos representativa.

Em:  https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today