JESUS PROFESSOR. Não é possível esquecer que Jesus foi professor, e o seu modelo de magistério é que está sendo abolido atualmente, sobretudo a necessidade de ser o mais claro possível naquilo que se ensina. “Que o teu sim seja sim, e o teu não seja não”, dizia o Mestre aos discípulos, “e o que passar disto vem do diabo.”

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A PEDAGOGIA DO CRISTO. Em seu modelo pedagógico distinguem-se, entre outros aspectos, a distinção de papéis entre quem ensina e quem aprende, o falar com autoridade e coragem sem deixar de ser humilde, a correção fraterna dos discípulos, a cobrança do conteúdo ensinado, o vínculo estreito entre o que se ensina e o que se vive, a dedicação em tempo integral à sua missão (e em qualquer lugar onde estivesse), nada ensinar que não seja útil à vida eterna e, o que só Ele podia fazer, entremeando um milagre aqui e ali para mostrar Quem era. Nunca fez greve. Nunca reclamou do salário (o Filho do Homem não tinha nem onde reclinar a cabeça). Nem precisava: o que ensinava atraía de tal modo as pessoas, que nunca faltaram homens e mulheres de posses que lhe ajudassem materialmente.
Não massificou seus ensinamentos. A cada faixa de público ensinava o que lhe fosse mais conveniente, tratando de forma diferente o público em geral, seus discípulos mais próximos e o círculo reduzido dos apóstolos.

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TÉCNICAS DIDÁTICAS DE JESUS. É impossível, também, não falar da utilização que Ele fez de técnicas didáticas adequadas a seu público, sobretudo a principal delas, a parábola, em que era ao mesmo tempo criador literário e intérprete da própria criação. A própria Palavra de Deus, tal como aparece nas Escrituras, é também literatura de alto nível. Infelizmente, porém, nossos cursos de Letras nunca tratam Jesus, o Verbo Encarnado, como poeta. No entanto, os Evangelhos possuem farto material para nossas aulas de literatura. O autor da salvação humana e principal mestre da moral ocidental foi, também, um mestre da linguagem figurada; um poeta, para resumir numa só palavra. Suas frases ficaram gravadas para sempre na memória das pessoas, cultas ou iletradas. Mesmo Gandhi, que muita gente no Ocidente usa como opção chique de liderança espiritual, não teria nada a dizer ao mundo se os opressores ingleses não lhe tivessem ensinado o Sermão da Montanha, cuja sabedoria temperou com algumas pitadas de exotismo religioso hindu, bem ao gosto da nova religiosidade sincrética que anda nos planos da ONU (e no gosto da maioria das pessoas, hoje em dia).

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RAZÃO E FÉ. Mesmo misturada a permanentes quebra-cabeças filológicos, a palavra de Deus brilha, nas Escrituras, com a força e a castidade da primeira estrela quando cai a noite. Deus criou, ou suscitou a criação de uma linguagem especial para se comunicar com os homens: a poesia da prece. O homem moderno, acostumado à linguagem técnica que inventou para comunicar-se com os estratos menos perceptíveis da matéria — os conceitos científicos —, encontra sérias dificuldades para aceitar a poesia da prece, com suas imagens e seu tom súplice de pedido humilde, de declaração explícita de inferioridade diante do Criador. A grande quantidade de padres cientistas revela, porém, que é possível conciliar as duas atitudes: ser, ao mesmo tempo, um pesquisador sério na universidade e um bom cristão ajoelhado diante da magnificência divina.