Um poeta que viveu à procura dos defeitos de Deus: foi o caso do mato-grossense Manuel de Barros, muito querido em nossos meios acadêmicos.

Manoel de Barros começou, na juventude, negando a ordem burguesa, para terminar mais tarde, depois do desencanto com o Partido Comunista, negando a própria ordem da realidade, através de uma arte que é, por excelência, criadora de realidades: a poesia.

Segundo ele, “há várias maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.” Ou seja, a poesia é o veículo mais autorizado para dizer coisas sérias sobre… nada. Talvez esteja aqui a chave para descobrir o encanto que os seus textos provocam em alunos e professores de literatura: a profunda sedução que, em nossa época, tem exercido o Nada e o caminho mais curto para atingi-lo: a negação como método e como fim.

Ninguém pode duvidar de sua habilidade verbal, apesar de nenhum domínio sobre a versificação tradicional (que era, também, a limitação de outros poetas brasileiros novecentistas, como Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Augusto F. Schmidt, para citar os mais conhecidos). Manoel de Barros conseguiu traduzir em linguagem poética o clima mental da nossa época, muitas vezes com imagens interessantes e até divertidas. Por isso, o veneram os simpatizantes dos desconstrucionismos pós-modernos, dos relativismos, dos multiculturalismos de toda a espécie.

Sua defesa do ócio como condição da arte, e da arte como fim em si mesmo, é radicalizada ao ponto de transformar a poesia em expressão da mais convicta anulação do mundo real. Não se trata da usual superação da realidade aparente, em nome da intuição de uma supra-realidade poeticamente organizada. Trata-se de um poeta que pulveriza as coisas com o único objetivo de colocar em seu lugar alguns trocadilhos interessantes. É quase um Mallarmé regionalista e meio populista, sem a refinada arte fin-de-siècle do grande niilista francês.

No caso do nosso Manoel, o que parecia ser mais uma brincadeira sobre coisa nenhuma, era na verdade uma enfática reafirmação da velha tese gnóstica e maniqueísta — que surgiu nos últimos séculos da Antiguidade e espraiou-se silenciosamente pelo Ocidente cristão, ajudando criar a Modernidade —, segundo a qual este mundo, construído pelo impiedoso demiurgo, não serve para nada, ou, no dialeto poético do autor mato-grossense, serve exatamente para brincar de Nada.

Essa poesia da Coisa Nenhuma esconde em si, sob as aparências de um discurso lúdico e brincalhão, uma sombria e desencantada visão de mundo, uma indisfarçável recusa da forma em que a própria realidade se ordena; sem nenhum trejeito revolucionário, trata-se no entanto de uma obra poética altamente comprometida com o projeto niilista, visando esvaziar de sentido as palavras da tribo e as velhas coisas do mundo, aquelas mesmas que Deus, depois de as criar, viu que eram boas. O poeta de Mato-Grosso deixou o Partidão, nos anos trinta, para transformar-se num revolucionário ainda mais radical que o estalinista Luís Carlos Prestes.

O que emperra a máquina da poesia de Manoel de Barros é essa obstinada pregação niilista: obstrui a maior parte dos seus livros, como um “entulho” escondendo o que, nos textos, poderia ser mágica revelação da realidade. A realidade, e não o Nada, é o que ainda aparece em sua obras, apesar do esforço contrário de Manoel de Barros em negá-la; aparece timidamente, apesar da nuvem aborrecida e entediante — caudatária do existencialismo ateu — com que procurou esconder a vivacidade do verdadeiro Pantanal mato-grossense, em que viveu a maior parte da sua vida.