Dana Gioia, poeta, crítico e professor

 

Muitas pessoas julgam uma religião por sua arte; e por que não deveriam fazê-lo? (Elizabeth Jennings)

Na esfera literária, os católicos americanos agora vivem uma situação mais próxima à de 1900 que à de 1950.

Trata-se de uma identidade cultural e religiosa que subsiste, na maioria das vezes, numa subcultura marginalizada; ou permanece desarticulada e encoberta numa cultura geral que dela escarnece ou repudia. Entre as “pessoas respeitáveis” mencionadas por Hilary Mantel, o catolicismo é algo retrógrado, marginal, desonroso. Não espanta, pois, que os escritores católicos mantenham-se numa atitude tão discreta em relação à sua fé. Afinal de contas, o que é que eles podem ganhar, hoje em dia, ao se identificarem como católicos? Quase não recebem apoio de sua comunidade, e nem mesmo o apoio espiritual de uma tradição artística ativa.

A cultura intelectual e acadêmica em geral permanece, ao menos tacitamente, anticatólica. A situação traz à mente o queixume espirituoso de Teresa d’Ávila a Jesus: “Se essa é a maneira como Tu tratas teus amigos, não espanta que tenhas tão poucos.”

Se for necessária uma imagem ou metáfora para descrever nossa atual cultura literária católica, eu diria que ela se assemelha ao estado presente dos velhos bairros urbanos de imigrantes, onde viviam nossos avós. Eles ainda conseguem preservar um pouco da cor local, em meio à sua infraestrutura decadente, mas já são, na maioria das vezes, lugares atraentes, dos quais fogem as pessoas que querem subir na vida; economicamente mortos, oferecem poucas oportunidades de empregos. Já quase não possuem poder social ou cultural. Para imaginar as artes católicas nos EUA de hoje, não pense em Florença ou Roma. Pense em Newark, New Jersey…

Outros poderiam resumir essa situação de forma um pouco diferente, mas duvido que qualquer observador honesto, diante da cultura literária dos nossos dias, pudesse refutar essa triste síntese que fiz das letras católicas. Apesar do multiculturalismo e do tão propalado respeito à diversidade, é preciso admitir que as letras americanas contemporâneas deixam pouco espaço ao catolicismo; e os católicos, nas atuais circunstâncias, têm recuado diante da cultura dominante.

Estou seguro de que disse algo deprimente, que irá enfurecer ou desagradar os leitores deste ensaio. Também me deprimo com tudo isto, mas não tenho como me desculpar: é a realidade. Mas, se esbocei em termos tão negativos a situação cultural dos escritores americanos de hoje, garanto que não foi por desespero, nem por cinismo. Estou convicto de que, para resolver um problema, é preciso primeiro encará-lo honestamente, sem minimizar ou recusar as dificuldades que apresenta. Para revitalizar algum aspecto da vida cultural, é obrigatório compreender as hipóteses e forças que o governam.

O colapso da vida literária católica reflete a grande crise de fé dentro da própria Igreja, que afeta, em todos os aspectos, a vida religiosa, cultural e intelectual. Além do mais, o que eu escrevi até agora também tem a ver, em termos gerais, com todos os cristãos americanos. Qualquer que seja a sua denominação, eles têm se distanciado cada vez mais do mundo das artes. Com efeito, entregaram as artes à sociedade secular.

É desnecessário dizer que, para o catolicismo, esse retraimento cultural — ou melhor, essa quase rendição — representa um abandono definitivo do papel tradicional da Igreja como mentora e benfeitora das artes. Em apenas cinquenta anos, a benfeitora é agora uma pária.

Em https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today