Em época como a nossa, na qual se praticam milhares de abortos por dia e as crianças são, cada vez mais, condicionadas a viver prematura e desordenadamente as experiências sexuais, convém lembrar o que Cristo pensava sobre a infância. Três aspectos chamam logo a atenção: Ele as desejava em sua companhia, defendia-as da malícia dos adultos e as transformava em modelos de confiança.

No capítulo 18, do Evangelho de São Mateus, perguntado pelos discípulos sobre as condições para entrar no Reino dos Céus, Jesus chamou uma pequena criança, que brincava ali perto, e a colocou no meio deles, dizendo-lhes: “Em verdade vos declaro: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos céus. E o que recebe em meu nome a um menino como este, é a mim que recebe. Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a pedra de um moinho e o lançassem no fundo do mar”.

Jesus não tinha como ser mais explícito, ao chamar a atenção dos adultos para a enorme responsabilidade que lhes cabia, na educação dos filhos. Ainda em São Mateus, no capítulo seguinte, foram apresentadas algumas crianças para que lhes impusesse as mãos e por elas rezasse. Como os discípulos procurassem afastá-las, Jesus recriminou-os: “Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se assemelham a elas.”

No capítulo 18 de São Lucas, a mesma passagem é retomada com variantes. Jesus recomenda: “Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará.” No capítulo 10 de São Marcos, indignou-se com o comportamento dos discípulos, ao impedir que as crianças viessem até Ele, e frisou: “Todo o que não receber o Reino de Deus como uma criança, nele não entrará.” Em seguida, além da imposição de mãos e da bênção, Jesus as abraçou, revelando a maneira especial com que as amava.

O Salvador destacava, aqui, uma atitude infantil que devia ser imitada pelos adultos: a confiança. Assim como os pequenos se entregam completamente ao cuidado dos pais, seguros de que não serão decepcionados, era preciso aceitar a Boa Nova, anunciada por Ele, com a mesma disponibilidade infantil, a mesma entrega irrestrita e total. Cristo não pedia que as pessoas se infantilizassem, no sentido de uma regressão infantil do comportamento adulto, mas que, ao se aproximarem da Palavra de Deus, se despojassem da maneira preconcebida e estereotipada de pensar.

O apóstolo São Paulo, alguns anos depois, na primeira carta aos Coríntios (1, 18-29), estava consciente das dificuldades de aceitar Jesus. Segundo ele, a “linguagem da cruz” — ou seja, tudo o que se refere a Jesus: os milagres, a sua divindade, a crucificação, a ressurreição — era inaceitável para a lógica do mundo, para a forma corriqueira de raciocinar, obediente a critérios práticos. A “linguagem da cruz” era “loucura” tanto para os judeus, que esperavam um messias guerreiro e político, como para os sábios, eruditos e pensadores do mundo pagão, que não admitiam a ressurreição dos corpos.

Só mesmo com a confiança irrestrita dos pequenos é que se pode aceitar a aparente loucura da mensagem cristã.