Poeta Paul Claudel

 

Certa imagem não poderias apagar de teu coração,

E esta imagem é precisamente aquela gravada no pano de Verônica.

É uma face fina e longa, contornando-lhe o queixo três tufos de barba.

Sua expressão é tão severa que intimida, e tão santa

Que o velho pecado, em nós organizado,

Estremece em sua raiz original, e a dor que ela exprime é tão profunda

Que, surpresos, ficamos parecendo com os filhos que, sem compreender,

Veem as lágrimas do pai: ele está chorando!

Em vão, bem que desejarias, ó Ivors, desfraldar diante desses olhos

A glória e o esplendor do mundo.

Esses olhos que, levantando-se, criaram, num relance, o Universo,

Estão baixos agora e deles descem lágrimas severas;

Sua fronte está suando gotas de sangue.

Mas, considera, ó meu filho, a boca de teu Deus, a boca , ó meu filho, do Verbo.

Que amargor está sentindo, que palavra visceralmente inefável está saboreando.

Pois estes lábios, no canto direito, se entreabrem num sorriso atroz.

Como chora com todo o seu ser, deixando a saliva escapar, igual a uma criança!

Pão não haverá para nós, ó meu filho, enquanto existir esta dor a consolar.

Eis a dor do filho do Homem que desejou provar e assumir o nosso crime.

Eis a dor do Filho de Deus,

Não poder apresentar ao Pai o homem todo no mistério da Ostensão.

 

(Tradução de Cláudio Veiga)