Alice McDermott, romancista 

 

“O sobrenatural é hoje uma coisa embaraçosa.” (Flannery O’Connor)

Olhando para os meados do século XX, quando escreviam Flannery O’Connor, Thomas Merton, Anne Porter e Allen Tate, quatro características dignas de nota se observam na cultura literária católica americana.

Primeiro, muitos escritores se identificavam publicamente como fiéis católicos. Segundo, o mundo cultural aceitava o catolicismo como uma possível e tolerável identidade artística. Terceiro, existia uma viva e dinâmica tradição intelectual e literária católica ainda bem ativa no mundo da cultura. Por fim, havia um ambiente  acadêmico e crítico que lia, discutia e apoiava a melhor produção literária católica.

Atualmente, já não há nenhuma dessas quatro condições. Paradoxalmente, apesar dos avanços sociais, políticos, econômicos e educacionais realizados pelos católicos, na primeira metade do século passado, nosso lugar na cultura literária estreitou-se dramaticamente.

Para descrever a situação atual, teríamos de rever cada uma daquelas quatro observações anteriores, reescrevendo-as de forma radicalmente diferente.

Sessenta anos atrás, muitos escritores consagrados se identificavam como fiéis católicos. Hoje, há só uns poucos que ainda admitem ser católicos praticantes, como Ron Hansen, Alice McDermott, Mary Karr, Tobias Wolff, Richard Rodriguez e Kathleen Norris; parecem, contudo, ser uma notável exceção numa cultura literária agressivamente secular.

Muitos autores católicos cultivam a sua fé de forma discreta. Mais significativo, ainda, é que a maioria dos jovens escritores não mais compreendem a sua religião como a base da própria identidade pessoal, tanto em termos espirituais como estéticos. Sua fé é algo a ser escondido ou até descartado, se o objetivo é conquistar sucesso num mundo artístico que se afigura cada vez mais hostil ao cristianismo. Em termos práticos, quem é que pode culpá-los?

De volta ao século passado, convém notar que houve muitas e famosas conversões literárias ao catolicismo. Isto não deixou de acontecer completamente.: não muito tempo atrás, ocorreram as famosas conversões literárias da “bad girl” e do “bad boy” Mary Karr e Franz Wright. (Há mais alegria no Céu quando um poeta perdido é encontrado, do que por noventa e nove romancistas que jamais se desgarraram.)

Agora, no entanto, a forma mais comum de “conversão” se dá entre artistas que abandonam a Igreja.  No romance O que aconteceu com Sofia Wilder, de Christopher Beha, o personagem agente-literário faz a seguinte observação: “Quem ainda se converte? A menos que se converta longe da Igreja…” Alguns escritores parecem abandonar a fé como um hábito recorrente. Anne Rice, que escreve histórias de vampiros, publicamente regressou e abandonou a Igreja por duas vezes.

A segunda observação, de que anteriormente já se aceitou o catolicismo como uma possível e tolerável identidade artística, também precisa ser substancialmente revista. Hoje, o mundo cultural vê a fé católica com suspeição, desdém ou condescendência. Desde muito tempo, a sociedade americana tem revelado traços visíveis de anti-catolicismo, proveniente do antagonismo protestante para com Roma, especialmente o puritano. O ódio antipapista se tornou um elemento permanente da intolerância populista, exemplificado pelos movimentos Know-Nothing e o Ku Klux Klan.

Essa arraigada tendência se perpetuava no preconceito de classe contra a chegada de imigrantes pobres, primeiro de irlandeses, italianos, alemães, poloneses, húngaros e mexicanos; e, mais tarde, de filipinos, cubanos, portoquinhenhos, vietnamitas, haitianos e centro-americanos, que vinham aos EUA à procura de uma vida melhor. A Igreja católica americana foi, historicamente, a Igreja dos imigrantes e dos pobres. Por isso, a fé católica tem sido vista, a miúdo, como uma crença retrógrada, que esses grupos desalojados trouxeram consigo do lugar de origem.

O anticatolicismo também tem sido comum no mundo da inteligência. Como observou Daniel Patrick Moynihan, “o anticatolicismo permanece uma forma respeitável de intolerância intelectual.” Durante a cerimônia em que Flannery O’Connor foi postumamente agraciada com o National Book Award, seu editor Robert Giroux recordou-se de uma celebridade literária, que havia se queixado: “Vocês pensam realmente que Flannery O’Connor foi uma grande escritora? Ela era uma católica romana.” Alguém teria feito uma observação semelhante em cerimônias em honra de Philip Roth ou Ralph Ellison?

O poeta-historiador Peter Viereck disse, certa vez, que “o catolicismo é o anti-semitismo dos liberais.” No entanto, a esquerda não desfruta do monopólio do anticatolicismo. Apesar do progresso ecumênico dos últimos anos, permanece persistente o preconceito entre fundamentalistas do Sul e evangélicos. Um esquerdista de Nova Iorque e um pentecostal do Alabama podem não se entender muito bem em muitas coisas, mas frequentemente compartilham a mesma antipatia pelos católicos.

Apesar do discurso cultural de comprometimento com a diversidade e a tolerância, o anticatolicismo cresceu muito, na última década, entre acadêmicos e intelectuais, provocado, em partes iguais, pelos escândalos de abusos sexuais no clero, direitos dos gays, renascimento do ateísmo e um prolongado preconceito histórico.

Na melhor das hipóteses, o catolicismo é visto como um negócio privado, em vez de uma identidade pública, incapaz de oferecer um fundamento oportuno ou confiável a um projeto estético pessoal. Recentemente, declarou a romancista inglesa Hilary Mantel: “Hoje em dia, a Igreja Católica não é uma instituição para pessoas respeitáveis”.

A terceira observação, de que houve uma tradição literária católica viva e dinâmica, também precisa ser revista. Já não se vê mais, hoje em dia, aquela forte e influente tradição católica no mundo cultural americano.  Os poucos e notáveis escritores, que ainda confessam ser católicos, parecem na maioria das vezes trabalhar isolados.

Tal isolamento não consegue dificultar a sua criatividade (Hansen, McDermott, Rodriguez e Wolff se classificam entre os melhores do país). No entanto, a ausência de uma identidade pública coletiva limita a sua influência, como católicos, tanto na cultura em geral como entre os jovens escritores. Paralelamente, os escritores menos famosos, que fizeram do catolicismo o centro de sua identidade artística, trabalham na maioria das vezes à margem da cultura dominante, imersos numa pequena subcultura católica que tem pouco impacto sobre a vida cultural do país.

Finalmente, a quarta observação — de que havia um ambiente crítico e acadêmico que discutia e apoiava os melhores escritores católicos —, talvez precise ser menos revista que as anteriores, mas de qualquer maneira a situação atual revela um cenário pouco animador: ocorreu uma notória diminuição do ambiente intelectual católico. (Tendência, diga-se, agravada por muitas escolas e universidades católicas que, agora, parecem socialmente envergonhadas de sua identidade religiosa.)

Ainda existe um pequeno, arriscado e bastante segregado número de revistas católicas (Commonweal, America e Crisis), assim como respeitáveis publicações ecumênicas (First Things e Image), e algumas acadêmicas (Christianity e Literature and Renascence). Porém, seus leitores e seu alcance coletivo diminuíram, permanecendo mais longe da cultura dominante do que seus equivalentes de sessenta anos atrás.

A influência desses diários, mesmo os maiores, como First Things e America, está limitada a uma retraída subcultura. Além disso, poucos diários católicos ainda publicam resenhas de livros de forma significativa, nem proporcionam uma boa cobertura literária. Como consequência, já quase não empregam críticos católicos que procurem escrever para sua própria comunidade, nem se transformam em significativa vitrine para autores emergentes.

Qual é o efeito dessa segregação intelectual? A voz católica é ouvida menos claramente, com menos freqüência, no diálogo público que informa a cultura americana. O resultado é que os católicos perderam o poder de apresentar seus próprios escritores à atenção de um público mais vasto. Se, hoje, algum romancista ou poeta católico vivo tem boa reputação literária, não foi construída por críticos católicos, mas pelo mundo literário secular, frequentemente a despeito de sua identidade religiosa.

A mídia católica já não possui suficiente poder cultural para indicar ou efetivamente apoiar o que é melhor para a sua própria comunidade. Tal situação tem incomodado as lideranças católicas? Não, especialmente. A subcultura católica parece visivelmente desinterressada das artes.

Quem acaba absorvendo a mídia intelectual católica é a política, conduzida na maioria das vezes em termos seculares — uma aborrecida batalha de direita versus esquerda oferecida à alma da Igreja americana. Contudo, se a alma do catolicismo romano se encontra na política partidária, então provavelmente é hora de fechar a capela… A Igreja universal é espaçosa o suficiente para conter uma boa medida de opinião política (caso contrário, a fé se transformaria em algo irreconhecivelmente insignificante). Se o cristianismo católico, porém, não oferece uma visão da vida que transcenda o ciclo eleitoral; se nossa redenção é social e nossa ressurreição é econômica, então é hora de entregar tudo a César.

Dizia Wallace Stevens que “Deus e a imaginação são uma coisa só.” É tolice entregar-se completamente a partidos políticos, mesmo que seja o nosso. Se o catolicismo americano se tornou mundano o suficiente para deixar-se absorver por partidos políticos, a causa talvez seja esta: a Igreja perdeu sua imaginação e sua criatividade.

Em https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today