Há um poema católico, escrito há quase oitocentos anos, que não interessa só a alunos de literatura, mas a todos que pertencem à civilização ocidental, em especial aos que professam a fé cristã. Trata-se do “Cântico das Criaturas”, ou “Cântico do irmão Sol”, de São Francisco, redigido no dialeto italiano da Úmbria. Considerado o primeiro grande texto da literatura italiana, foi escrito no final da vida do santo, provavelmente em 1224.

O conteúdo do poema é muito simples. Inicialmente, o poeta louva e bendiz a Deus, em gratidão pelas criaturas naturais, às quais trata fraternalmente como irmão Sol, irmã Lua, irmãs Estrelas, irmão Vento, irmã Agua, irmão Fogo, irmã Terra, mencionados nesta ordem cósmica: do mais alto ao mais terreno. Em seguida, agradece a Deus pelas virtudes morais e espirituais, como o perdão, a paciência, a humildade, cujo praticante será um dia coroado com a bem-aventurança da vida eterna, concedida aos que se conformam à Sua vontade (e à qual só terão acesso através da “nossa irmã a Morte corporal”).

Mas “Ai dos que morrerem em pecado mortal!”, avisa o santo com clareza num dos últimos versos, encerrando com a mesma louvação do Criador que abre o texto. O poema tem, portanto, uma estrutura circular, começando e terminando com a glória de Deus, em óbvia sugestão de Sua onipotência.

Trata-se, portanto, de um poema católico. O que não impediu um famoso padre cantor de excluir justamente este verso (“Ai dos que morrerem em pecado mortal!”) de sua versão cantada do poema, caudatária de estranha concepção teológica, neomodernista, segundo a qual a “misericórdia” divina seria superior à sua “justiça”. Se o Inferno existisse, estaria vazio, e o problema do pecado mortal deixaria subitamente de ter sentido.

Mas voltando ao “Cântico”, há uma ligação íntima entre os dois mundos presentes do poema, ao mesmo tempo em que se separam: o mundo natural, carregado de beleza e sem sofrimento, a serviço do homem por dádiva do Criador; e a criatura humana que, mesmo cercada por tão bela natureza, está sempre sujeita à doença e à morte, ainda que destinada a sobreviver além do tempo, ressuscitada num universo refeito e glorioso, em que os elementos naturais certamente reaparecerão, embora com diferente status.

A descoberta dessa fraternidade, dessa amizade universal de todas as coisas criadas, é uma das grandes contribuições de São Francisco à espiritualidade cristã. Um aspecto digno de nota, na vida do santo italiano, foi o seu relacionamento com os amigos. Para ele, a amizade era uma graça fundamental: quando resolveu engajar-se no Evangelho, não o fez sozinho, mas com um grupo de amigos, embrião da futura ordem franciscana, fundada sobretudo na noção de amizade.

Como bom cristão, porém, sua concepção de amor é inseparável da consciência da morte. Amor e morte são duas faces da mesma moeda. A experiência da finitude humana foi determinante na decisão de São Francisco de trocar a Cidade dos Homens pela Cidade de Deus, para lembrar os dois conceitos famosos de Santo Agostinho, cuja filosofia da história marcou profundamente a Idade Média.

Em vários momentos, São Francisco viu de perto a morte. Já antes da conversão, a doença o prenderia à cama por longo tempo. Depois de sua última incursão guerreira, foi castigado com vários meses na prisão. Nada, contudo, que se comparasse à experiência do beijo no leproso, quando ocorreu, de fato, a sua troca de cidadania, mudando de mala e cuia da Cidade dos Homens para a Cidade de Deus. Foi o momento em que “o amargo tornou-se doce, e o doce tornou-se amargo”.

São os dois sabores predominantes no “Cântico das criaturas”: o doce e o amargo. De um lado, a doçura da natureza indolor; de outro, a amargura da condição humana sujeita ao sofrimento. Há quem reduza o poema ao que ele nunca foi: um elogio dos elementos naturais, transformando-o em hino pagão à natureza divinizada. São Francisco jamais seria um militante ambientalista, lutando pela economia sustentável, pois conhecia mais que ninguém a radical insustentabilidade deste mundo efêmero e corruptível. O texto nada tem de panteísta: as coisas criadas mantêm-se, na visão franciscana, funcionando independentes da ação de Deus, seguindo seu próprio curso, em obediência às leis naturais (exceto quando o próprio Criador resolve excepcionalmente interferir, como nos milagres).

Um dos aspectos mais importantes do poema é a concepção da natureza a serviço do homem. Em termos de influência histórica, além da literária e a teológica, o “Cântico das criaturas” criou uma certa atmosfera intelectual que favoreceu a investigação objetiva da natureza, propiciando o início do desenvolvimento científico do Ocidente.

 

CÂNTICO DA CRIATURAS – São Francisco de Assis

Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória, a honra e toda a benção.

Só a ti, Altíssimo, são devidos; e homem algum é digno de te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,

Especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e com sua luz nos alumia.

E ele é belo e radiante com grande esplendor: de ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas, que no céu formaste-as claras e preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor pela irmã Água, que é muito útil e humilde e preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Fogo, com o qual iluminas a noite, e ele é belo e jucundo e vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor, e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados os que as sustentam em paz, que por Ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal, da qual homem algum pode escapar.

Ai dos que morrerem em pecado mortal! Felizes os que ela achar conformes à tua santíssima vontade,porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei ao meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-O com grande humildade.

(Tradução de Pedro Garcez Ghirardi)