O franciscano Padre Pio (1887-1968), hoje São Pio de Pietrelcina, foi proclamado santo, pelo Papa João Paulo II, no dia 16 de junho de 2002. Em 1918, aos trinta e um anos — quando o pontífice reinante era Bento XV —, já apareceriam nalguns pontos do seu corpo os célebres estigmas, ferimentos semelhantes às chagas de Cristo.

Para evitar fraudes e imposturas religiosas, a Igreja sempre foi muito zelosa nesses assuntos, e, tão logo se espalhou entre os fiéis da região a notícia dos estigmas, cuidou de investigar o problema, enviando médicos e teólogos à cidadezinha de São Giovanni Rotondo, em cujo convento vivia o jovem frade. Padre Agostino Gemelli (1878-1959) foi um dos designados para essa missão investigativa, a pedido do Cardeal Merry Del Val, responsável pelo então Santo Ofício, atual Congregação para a Doutrina da Fé.

Padre Gemelli, também franciscano, era visto como autoridade científica na área da psicologia experimental. Converteu-se ao catolicismo depois de formar-se em medicina e se especializar em psiquiatria, entrando para a Ordem de São Francisco. Fundador de Universidade Católica de Milão, foi um nome importante da Igreja para o diálogo entre ciência e fé, o que não o impediu de equivocar-se, no caso do Padre Pio.

O fato é que foi mesmo desastroso o encontro dos dois religiosos. Durou muito pouco, menos de um minuto… Padre Pio nunca se esqueceu dos votos de pobreza, castidade e, sobretudo, de obediência, que havia feito. Sempre disposto a obedecer, recusou-se no entanto a receber em sua cela o ilustre visitante, alegando que não trazia uma solicitação formal da Santa Sé. O que era verdade: Padre Gemelli, orgulhoso de sua celebridade, confiava em sua fama para ser bem recebido pelo confrade ainda obscuro.

O santo de Pietrelcina era um grande perscrutador de corações. Famoso por adivinhar, no confessionário, o foro íntimo de seus penitentes e antecipar-lhes os pecados relutantes, Padre Pio teria seguramente sido mais simpático com o padre psiquiatra, com ou sem solicitação formal, se nele não visse intenções suspeitas, certa má vontade cientificista para com o sobrenatural. Mais tarde, em carta enviada a um jesuíta inglês, Padre Gemelli faltaria com a verdade, ao afirmar que examinara, cuidadosamente, os estigmas de Padre Pio.

Padre Gemelli sentiu-se agredido com o tratamento que recebeu. Era também conhecido pelo temperamento vingativo, que não tardou a se manifestar no relatório que fez ao Cardeal Merry, enquadrando sumariamente Padre Pio na categoria dos histéricos. Acreditava suficientes para o diagnóstico os poucos segundos em que conseguiu observar o rosto e o modo de olhar, a fisionomia e o jeito como andava, a voz e as impostações da fala do frade estigmatizado. Quanto aos estigmas, que não pôde ver, sustentava que fossem provocados pelo próprio Padre Pio, em estado de semiconsciência.

Duas maneiras de perscrutar as almas se confrontaram naquele rápido e fracassado encontro: a natural, baseada na observação e perspicácia humana de um psiquiatra, e a sobrenatural, fornecida por Deus a um filho querido. Venceria a segunda, por maior que fosse a legitimidade da primeira.

Quanto aos estigmas, acompanharam Pare Pio por toda a vida. Jamais infeccionavam, exalando um misterioso perfume de rosas, o que foi bem comprovado e atestado por médicos e cientistas, que descartaram de pronto a sua origem patológica, junto com outras manifestações sobrenaturais (profecias, centenas de curas inexplicáveis, bilocações, consciência do pensamento alheio) que Deus permitiu a esse misterioso frade italiano.

O relatório do Padre Gemelli contribuiu para que alguns homens importantes, na alta hierarquia da Igreja, pensassem o pior do Padre Pio, vendo-o, na melhor das hipóteses, como um caso psiquiátrico, e até como impostor. Contudo, a vitória da mentira foi provisória. Hoje, Padre Pio é um santo canonizado da Igreja Católica e sua devoção não deixa de crescer em todo o mundo. (JCZ)