Quase todos tínhamos um carinho especial por aquela velhinha solteirona, dona Judite, titular de literatura portuguesa em nosso departamento. Beirava os setenta anos e possuía uma notável cultura geral; o pessoal a chamava de Margaret Thatcher, pelo cabelo armado e suas posições conservadoras. Podia ter pedido a aposentadoria há mais de uma década, mas amava o magistério e por isso continuava conosco. Católica de missa diária, sua mesa era a única com objetos sagrados: a Bíblia e uma imagem da Virgem de Guadalupe.

Lembro-me bem de sua última participação em nosso conselho deliberativo, um pouco antes do Natal. Como membro titular, lá estava ela no lugar de sempre, pronta para ajudar o departamento a decidir sobre as questões administrativas e acadêmicas do mês. A pauta era longa, mas absolutamente irrelevante. Foi então que nossa colega teve uma primeira e inusitada ideia: aproveitou o tempo e, no verso de uma das folhas de sulfite que continham a pauta da reunião, passou a escrever algo que leria no momento das comunicações dos conselheiros. O texto redigido, e depois realmente ouvido por nós, era o seguinte:

— “Prezados colegas! Gostaria de aproveitar a oportunidade desse nosso último encontro, depois de um ano com greve tão longa e desgastante, e desejar a todos um bom e santo Natal. Que não esqueçamos, já bem perto da data de comemorarmos a encarnação da Palavra divina — o Verbo de Deus que se fez carne —, não esqueçamos que Jesus, segunda pessoa da Trindade, é o logos de Deus. A Sua parte pensante e, para o nosso bem, parte falante. Não só para nós, cristãos, mas para todos os que viemos depois da encarnação do Verbo, tal materialização da Palavra divina foi o fato mais importante da história universal, dividindo-a em antes e depois, como pode atestar qualquer manual de introdução à história da humanidade. Como nosso curso de Letras deita suas raízes justamente na palavra, gostaria de aproveitar a ocasião do Natal para pedir algo ao Verbo divino: que nossa pobre linguagem humana não se corrompa ainda mais, pois, coitadinha dela, anda tão judiada pelos inimigos da gramática e do bom senso! E que a universidade, atravessando a mais grave crise desde a sua fundação pela Igreja, na Idade Média, atraída cada vez mais pelas forças do abismo, consiga escapar do imensurável buraco sem fundo que a ameaça. Afasta de nós este cálice, Senhor! Se não for possível, seja feita a Tua vontade!”

Depois de lida tão inusual comunicação de conselheiro, a velha professora católica teve uma segunda idéia: pediu que o texto fosse incluído em ata, como costumam fazer alguns colegas em assuntos mais polêmicos. Quase todos concordamos; afinal, dona Judite era muito querida por todos, apesar da maioria considerar suas idéias um tanto ultrapassadas. E era fim de ano: a atmosfera natalina, junto com a perspectiva do merecido repouso, predispunha-nos à tolerância.

O texto acabaria mesmo transcrito nas atas do conselho, não fosse a intervenção do nosso colega petista, que era da direção do sindicato de professores. Alegou o caráter laico da universidade pública e a inconveniência de manifestações de ordem religiosa, alheias ao estritamente acadêmico, num documento burocrático como era aquele livro de atas do departamento. Era favorável a que se fizesse referência à sua fala, mas era terminantemente contra a sua inclusão literal.

Depois disso, nos dividimos e gastamos quase uma hora para decidir se o desabafo da velha professora seria ou não incluído no livro de atas. Durante essa hora, a professora decidiu ficar em silêncio, sem ousar defender a sua proposta. Parecia ouvir quase com indiferença as doutas ponderações dos colegas e algo que ela escutava muito mais do que nós: o ruído das enormes pedras que surdamente caíam, que continuariam a cair, desabadas desse edifício milenar chamado universidade, em seu caminho irreversível para o buraco sem fundo.

Alguns dias depois, no início do ano seguinte, soubemos que aquela tinha sido a última participação de dona Judite no conselho e na própria universidade: solicitara a aposentadoria.