A explosão de obras católicas nos Estados Unidos, nas duas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial, tem sido algumas vezes descrita como um renascimento ou renovação, mas esses termos atraentes são impróprios. Não houve, anteriormente, uma tradição literária católica americana que pudesse renascer. Até o período da guerra, a literatura americana foi, na maioria das vezes, uma coisa protestante temperada por esparsas vozes judaicas (com ambos os grupos tornando-se cada vez mais secularizados).

Ainda que os católicos já se classificassem, desde 1890, como a maior denominação religiosa nacional, barreiras linguísticas, educacionais e culturais atrasaram o seu desenvolvimento literário. Apesar do sucesso de algumas poucas figuras populares, como Joyce Kilmer, quase não houve produção literária de significação duradoura. Foi necessário meio século de crescimento e progresso nas escolas, universidades, jornalismo e publicidade católicos, para tornar possível a realização ocorrida em só em meados do século XX.

O período entre 1945 e 1964 representou o primeiro e pleno florescimento da criatividade católica americana — uma expansão poderosa da literatura nacional, que impressionava tanto pagãos como piedosos com a sua energia, sua profundidade, sua originalidade. Não foi uma renascença, mas um nascimento: era a sensibilidade de uma velha fé que se fazia ouvir, pela primeira vez, em um novo mundo. As pobres comunidades dos imigrantes, que remodelaram a população nativa dos EUA, agora ajudavam a reconfigurar as letras americanas.

A década do pós-guerra não foi um período de predominância literária católica, nem isto seria, em meu modo de ver, um objetivo sedutor e desejável. Em vez disso, foi um momento em que as vozes católicas desempenharam, em toda a sua diversidade, um papel ativo na formulação desse dinâmico diálogo público que é a literatura americana.

O catolicismo não era visto somente como uma cosmovisão consistente, com sua vocação artística ou literária. Rica em ritos, sinais e símbolos, a Igreja Romana era frequentemente considerada como a fé mais compatível com o temperamento artístico.

Não era nada surpreendente ouvir que algum escritor se convertesse, fosse o jovem Robert Lowell ou Ernest Hemingway, de meia idade como Allen Tate ou Edith Sitwell, já mais velhos como Tennessee Williams ou Claude McKay, ou até moribundos como Wallace Stevens ou Jaime de Angulo. Enfim, como disse outro convertido no leito de morte, Oscar Wilde: “O catolicismo é a única religião para se morrer.”

Sessenta anos atrás, era dado como certo que uma porção significativa dos escritores americanos era de católicos que procuravam equilibrar sua dupla natureza: a de artistas com a de fiéis. Esses escritores publicaram nos principais jornais e revistas da época, assim como em revistas e jornais especificamente católicos. Também receberam os maiores prêmios literários do país. Entre 1945 e 1965, romancistas e poetas católicos receberam onze Prêmios Pulitzer e cinco National Book Awards (seis NBA, se levarmos em conta a publicação póstuma, em 1972, das Histórias completas, de Flannery O’Connor).

Os autores católicos foram resenhados e discutidos na imprensa em geral, enquanto também eram inteligentemente cobertos pela larga e variada imprensa católica. Thomas Merton publicou pela Harcourt Brace, New Directions e Farrar, Straus and Cudahy, como por editoras monásticas e eclesiásticas. Foi resenhado em Time, Life, Atlantic Monthly e Saturday Review, como em Commonweal, Ave Maria, Catholic World e Theology Digest.

Os escritores também tinham a oportunidade, se o preferissem, de atingir o público católico pessoalmente, através de um amplo circuito de palestrantes ligados a associações e escolas religiosas. Mesmo mutilada pelo lúpus, Flannery O’Connor ajudou a pagar as contas da família com esses círculos de palestras. Visitou faculdades, ciclos de conferências, seminários e até um convento de freiras em clausura. Considerava cansativas as viagens, mas frequentemente se divertia com as pessoas que encontrava. “É relaxante supor que seu público possua as mesmas crenças que você”, costumava dizer.

É interessante ver quão amplo e considerável era outrora o público literário católico, e quanto isso influiu na cobertura literária que a imprensa em geral dava aos escritores católicos.

Ao ler as entrevistas publicadas de Flannery O’Connor, um estudioso de hoje poderia ficar surpreso ao verificar como boa parte delas apareceu em jornais católicos, uma situação hoje inconcebível para um jovem escritor sério. Igualmente inconcebível, os jornais seculares perguntavam-lhe elegante e respeitosamente sobre as relações de sua fé com sua arte.

O escritor católico daquela época podia dirigir-se tanto ao leitor em geral como ao leitor católico, sabendo que ambos os públicos, mesmo com suas especificidades, também tinham algo em comum.

Em: https://www.firstthings.com/article/2013/12/the-catholic-writer-today